Uma agente da PSP confirmou esta quarta-feira em tribunal que o lar A Luz dos Pastorinhos, em Lisboa, cuja proprietária está acusada de maus-tratos a idosos, não tinha condições de funcionamento, o que levantava "fortes suspeitas de negligência".

A agente da PSP foi uma das responsáveis por uma ação policial que levou ao encerramento em 2012 do lar A Luz dos Pastorinhos, na sequência de uma denúncia de maus-tratos a idosos da instituição. No entanto, o lar reabriu as portas há cerca de dois anos.

Segundo a acusação do Ministério Público (MP), a proprietária do lar "tomou decisões em prejuízo dos utentes, com vista a gastar pouco dinheiro".

O MP relata que os idosos viviam sob "insuficiência de cuidados assistenciais de enfermagem e de vigilância" e estavam "subnutridos", além de a responsável pelo lar de terceira idade ordenar às funcionárias que dessem banho aos utentes "com vinagre, detergente da loiça ou lixívia".

Na primeira sessão de julgamento, que decorreu há uma semana, a proprietária negou as acusações.

No entanto, na sessão de hoje, na Instância Central Criminal de Lisboa, a agente Carla Carvalho – que esteve pela primeira vez no lar para ouvir um depoimento de uma idosa sobre maus-tratos por parte de um familiar - disse ao coletivo de juízes que desde o primeiro momento em que entrou na instituição ficou com “fortes suspeitas de negligência sobre os idosos".

"Achei o lar frio e não era confortável. A primeira vez que lá fomos tocámos à campainha e estivemos, eu e o meu colega, cerca de 40 minutos à espera que nos abrissem a porta."

Carla Carvalho referiu que se apercebeu de que a comida era escassa e que não havia aquecedores suficientes: "Essencialmente queixavam-se de frio, de fome e que a responsável gritava muito com eles", relatou.

Na sessão de hoje o coletivo de juízes ouviu também o testemunho do sobrinho de uma das utentes do lar, que referiu que a tia, que é surda e cega, apareceu com galos na cabeça e se queixava que lhe davam "carolos".

"Sempre que ia visitar a minha tia ela pedia-me a bengala e dizia que era para se defender. Ela dizia que lhe batiam na cabeça, mas eu nunca acreditei. Um dia percebi que tinha vários galos na cabeça e então fiquei na dúvida", contou.

Uma das acusações que pendem sobre o lar é de que as camas não tinham grades, o que fazia com que os utentes caíssem durante a noite. No entanto, segundo o familiar ouvido, este não era o caso da cama da tia.

“As outras não sei", acrescentou.

O lar de idosos A Luz dos Pastorinhos, que estava licenciado e recebia utentes encaminhados por instituições de solidariedade, tinha 24 utentes em janeiro de 2012, que pagavam à instituição uma mensalidade entre 1.535 e 1.750 euros.

A acusação do MP conta ainda que todo o pessoal contratado não tinha conhecimentos básicos do processo de envelhecimento, assim como não possuía conceitos acerca de saúde/doença, nutrição, higiene, locomoção, medicamentos/riscos e cuidados a ter com utentes dependentes.

Ao permitir que durante uma semana os idosos não recebessem cuidados de enfermagem - pois nenhuma enfermeira desempenhava funções no lar -, a arguida fez com que os utentes "sofressem e agravassem as lesões", refere a acusação.

A próxima sessão deste julgamento realiza-se no dia 2 de março, com início às 09:30.