O fim do financiamento das visitas de estudo vai impedir muitos alunos de participar nestas atividades, que são «verdadeiras aulas», alertou a Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP).

O Ministério da Educação e Ciência (MEC) decidiu, no início do ano letivo, que as visitas de estudo dos alunos mais carenciados passariam a ser pagas com verbas das escolas (orçamento privativo), que podem usar as receitas obtidas na papelaria ou no bar.

No entanto, muitos estabelecimentos de ensino não têm orçamento suficiente até porque «já usam essas verbas para suportar a alimentação de alguns alunos», lembrou o vice-presidente da ANDAEP, Filinto Lima.

Resultado: algumas escolas deverão optar por suspender as visitas enquanto outras estão a pedir aos alunos que paguem os passeios, contou à Lusa Rui Martins, da federação de pais do distrito de Viseu (FrapViseu), que teme que a maioria dos estudantes fique impedida de participar.

«Os orçamentos das escolas já são muito reduzidos, o número de alunos carenciados é cada vez maior e por isso as escolas não conseguem suportar mais este encargo. Mais de metade dos alunos não vão poder participar nas visitas de estudo», contou à Lusa Rui Martins, da FrapViseu.

Rui Martins critica a decisão do MEC e dá o seu exemplo pessoal: «Neste momento a minha mulher está desempregada e eu não posso mandar a minha filha para a visita de estudo, porque estamos a falar de atividades que podem custar entre 15 a 20 euros».

Filinto Lima diz que «esta não foi uma novidade agradável para as escolas» que agora terão de optar entre «desistir das visitas ou pedir aos alunos que podem para contribuir com mais dois ou três euros de forma a irem todos. Não poderá é haver visitas em que não vão todos».

O representante dos encarregados de educação lembra ainda que esta medida promove a desigualdade, uma vez que algumas escolas até terão capacidade para promover as visitas enquanto outras não.

O problema começou agora a ser mais falado porque é nesta altura do ano que se realiza a maioria das visitas, que «não são passeios, são verdadeiras aulas», lembrou Filinto Lima, sublinhando que «os professores aproveitam estas visitas para consolidar a matéria dada na aula».

Além disso, muitos diretores optam por marcar as visitas de estudo para os dias em que se realizam exames nacionais, como forma de garantir as condições necessárias para os restantes alunos prestarem provas.

Filinto Lima critica o Governo dizendo que «deveria ver a Educação como um investimento e não como uma despesa. Cortar na Educação é um mau princípio».

Os pais exigem que o diploma que definiu esta mudança, que consideram «imoral e injusto» e «que viola a equidade e a igualdade de oportunidades», seja corrigido ou anulado, permitindo aos alunos mais «carenciados oportunidades de aprendizagem que de outro modo não terão».

A Lusa contactou o MEC ao início da tarde, mas até ao momento não obteve qualquer comentário.