Em Portugal nascem mais meninos do que meninas mas, aos 85 anos, por cada cem mulheres, subsistem apenas 46 homens, números que, apesar de tudo, traduzem uma evolução, porque, há 40 anos, eles ainda morriam em maior número.

Em 1976, por cada cem mulheres com 85 ou mais anos, havia 37 homens, um valor que subiu 10 pontos desde então. A evolução positiva para os homens verifica-se em todas as faixas etárias, mas é sempre desfavorável para eles, a partir dos 30 anos.

Cruzando dados do portal estatístico Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, por ocasião do Dia da Mulher, na terça-feira, conclui-se que, em termos gerais, foi no sexo feminino a maior evolução nas últimas décadas, havendo, por exemplo, hoje, mais médicas, magistradas e advogadas, do que médicos, magistrados e advogados.

E, no entanto, as mulheres têm à partida uma desvantagem aparente. É certo que são mais do que os homens, em termos de total da população (cerca de mais 500 mil, uma superioridade constante), mas nascem em menos quantidade.

Tomando por base 2014 (a relação é idêntica em todos os anos), desde os zero aos 19 anos, há sensivelmente 104 homens para 100 mulheres. A partir dos 20 anos começa o “descalabro” para os homens e, na faixa etária 30-34, já são só 95 por cem mulheres. A descida vai-se acentuando e, entre os 65-69 anos, há 83 homens para cem mulheres, acabando em menos de metade a partir dos 85 anos.

Dizem as estatísticas que as mulheres vivem em média mais três anos do que os homens, uma diferença que vem desde os anos de 1970 (desde quando a Pordata dispõe de números sobre esta matéria), acompanhando o aumento da esperança média de vida. Assim, um homem com 65 anos, em 2013, podia esperar viver mais 17,2 anos, uma mulher “contaria” com mais 20,6, uma média das mais altas da União Europeia.

Além de mostrar a faceta de sobrevivente, o cruzamento de números da base dados da Pordata mostra também que a mulher de hoje é diferente do que era noutras décadas.

Em 1960, casava e tinha filhos aos 25 anos, casou mais cedo ainda nos anos de 1970 e de 1980, e hoje casa e tem o primeiro filho aos 30. E tem menos filhos: 1,21 por mulher em idade fértil (em 2013), contra os 3,16, em 1960. É o valor mais baixo da União Europeia.

Depois também é mais escolarizada do que em 1992, quando quase metade (44,2 por cento) das jovens mulheres adultas deixava de estudar sem completar o ensino secundário, sendo hoje apenas 11 por cento (os rapazes 16,4 por cento). E, no ensino superior, passaram de 42 por cento, em 1978, para mais de 53 por cento, hoje, sendo a maioria dos diplomas superiores atribuídos a mulheres, que representaram 54,8 dos doutoramentos de 2013 (eram 6,7 por cento em 1970).

Uma evolução que faz outros números lógicos, embora impensáveis há poucas décadas: em 2014, estavam inscritas 15.647 advogadas na respetiva ordem, contra 13.690 homens (em 1990 os homens eram três vezes mais), em 2013, eram mulheres 53 por cento dos médicos (40,2 em 1991).

Apesar de todas as conquistas, o cruzamento de dados da Pordata indica que o campo económico não evoluiu da mesma forma e, em alguns casos, até regrediu.

A mulher portuguesa é das que menos trabalha a tempo parcial na União Europeia, é das que sofre maior disparidade salarial, em relação aos homens (aumentou quase para o dobro desde 2007), e uma em cada cinco é considerada pobre, dos números mais altos da União Europeia.

E ainda que o número de mulheres empregadoras tenha aumentado cinco vezes, em relação à década de 1970, ainda só representam 29 por cento do total. Em números concretos, havia em 1974 cerca de 12.000 mulheres empregadoras, que passaram para 62.000, em 2015. Trabalhadoras por conta de outrem eram, no ano passado, quase dois milhões.

De resto, de acordo com a mesma fonte, os homens ainda suplantam as mulheres na utilização de computadores e da internet, são mais do dobro os praticantes de desporto tradicionalmente masculinos (400 mil homens para 141 mil mulheres em 2014) e, na política, também prevalece o homem.

Uma questão de anos, pela tendência evolutiva desses números. Em 1975, para 250 deputados havia 19 mulheres. Em 1991, quando os deputados passaram a 230, elegeu-se mais uma deputada (20 ao todo). E, nas últimas eleições, entraram na Assembleia da República 76 mulheres, quatro vezes mais do que em 1975.