A vice-presidente da Ordem dos Nutricionistas Graça Raimundo explicou à Lusa que a quebra no consumo de leite gordo se pode dever a uma opção da população pelo leite meio-gordo, alternativa recomendada para a idade adulta.

“Se nós persistirmos numa ingestão sistemática de um valor calórico mais elevado e de uma quantidade de gorduras saturadas maior ao fim de algum tempo vamos ter os resultados. O leite magro tem aproximadamente 30 quilocalorias por 100 mililitros enquanto o leite gordo tem cerca de 60 por 100 mililitros. O meio gordo tem aproximadamente 45. Em termos nutricionais, a quantidade de proteínas e a quantidade de hidratos de carbono é igual”, ressalvou Graça Raimundo à Lusa, questionada sobre os benefícios ou malefícios do leite gordo no contexto de uma eventual quebra do consumo.

A página da Direção-Geral de Saúde sobre alimentação saudável recorda que o leite é um “alimento de elevado valor nutricional [e] apresenta quantidades interessantes de vitaminas e minerais”, com destaque para a vitamina B12, a vitamina D, o cálcio e o fósforo.

"A população adulta e mesmo a população jovem não necessita de beber leite gordo, pode ser substituído por leite meio-gordo, que, em termos nutricionais, se torna mais adequado, porque a gordura do leite, embora seja uma gordura de fácil digestão, é uma gordura de origem animal e tem implicação nas doenças cardiovasculares", afirmou a dirigente da Ordem dos Nutricionistas.

Num texto escrito à Lusa, o professor catedrático da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP) Pedro Moreira afirmou que, "contrariamente ao que muitas vezes se pensa, nem tudo é mau na gordura do leite e na sua fração gorda existem componentes de grande interesse em nutrição humana, desde as vitaminas solúveis na gordura (pelos seus teores, especialmente as vitaminas A e E), até aos próprios componentes que constituem naturalmente essa gordura".

"Ainda que possamos ter uma ideia contrária, o consumo de leite pode não ser, necessariamente, um fator que aumente o risco de doença coronária podendo até, no caso da ingestão de leite com menor teor de gordura, o consumo aparecer associado a menor risco de AVC", explicou Pedro Moreira, lembrando as diferenças entre leite e derivados como manteiga ou queijo.

A vice-presidente da Ordem dos Nutricionistas realçou que no que pode haver diferenças entre os diferentes teores de gordura é ao nível das vitaminas lipossolúveis, o que significa que quando se retira a gordura ao leite, as vitaminas lipossolúveis “acabam por não estar presentes” ou estão em menor quantidade, sendo importantes para o ser humano em termos de crescimento e de formação da massa óssea.

Graça Raimundo alerta que também os “ecos de estudos” que ligam o leite a doenças variadas podem ter um impacto no consumo de leite em geral, encaminhando as pessoas para as bebidas de soja, de amêndoa ou de arroz, a que, "de forma incorreta, a população chama leite".

“O que é importante que as pessoas percebam é que dentro destas opções há opções que são mais caras do que o próprio leite”, afirmou Graça Raimundo, por um lado, enquanto, por outro, o leite é “muito rico em termos proteicos e as proteínas são de alto valor biológico porque têm todos os aminoácidos essenciais”.

A nutricionista alertou para outra questão: “O que é importante que as pessoas percebam também é que o facto de estas bebidas vegetais não terem gorduras saturadas não significa que sejam isentas de gordura e às vezes há uma confusão entre a qualidade da gordura e a quantidade da gordura”.

 

Consumo de leite gordo em Portugal cai 20% em 2015

O consumo de leite UHT gordo em Portugal caiu 20% em 2015, face ao ano anterior, de acordo com dados da Nielsen disponibilizados pelo Continente à Lusa, tendo passado de 9.438.136 de litros para 7.551.786 litros.

“O leite, sendo de origem animal, é uma fonte de gordura saturada, ou seja, um tipo de gordura que quando consumido em excesso faz aumentar o colesterol LDL sanguíneo (‘mau colesterol’). Por este motivo as recomendações são, tal como referido, para que se opte pelas versões magras ou meio-gordas”, disse, por escrito, fonte daquela marca, que sublinhou que os valores da redução “estão em linha com o que se verifica nas lojas Continente”.

Por seu lado e sem apresentar valores, fonte oficial do Pingo Doce referiu que se constata, naquelas lojas, “que o leite meio-gordo se destaca em termos de quota (em litros), seguindo-se o leite magro e [que] o leite gordo tem um peso bastante reduzido nesta categoria”.

No entanto, o Pingo Doce, “no que diz respeito à evolução de vendas (em litros), de 2014 para 2015” registou “um ligeiro crescimento na categoria do leite”.

Para o diretor-geral da Associação Nacional dos Industriais de Laticínios, Paulo Leite, “o problema não se trata do leite gordo, trata-se do leite em geral”, apontando para uma quebra de consumo na ordem dos 7%, a partir de dados de outubro.

O mais recente boletim mensal de agricultura e pescas do Instituto Nacional de Estatística (INE), de janeiro, refere que, em novembro de 2015 (último mês para o qual há dados disponíveis), “o volume total de produtos lácteos diminuiu 6,1% (-12,7% em outubro), devido uma vez mais ao menor volume de leite para consumo (-11,2%)".

Novamente segundo o INE, no geral do leite para consumo, entre janeiro e outubro de 2015 e o período homólogo de 2014 havia uma quebra de 11,5%, de 709.872 toneladas para 628.196.

Já segundo dados da Nielsen utilizados pelo Observatório do Mercado do Leite da Comissão Europeia, o volume de leite UHT em Portugal nos primeiros dez meses de 2015 havia caído 7,1% face ao homólogo de 2014, mas, a nível de valor, a quebra era de 14,7% para igual período.

“Temos atribuído [a quebra] um bocado à campanha anti-leite que se tem vindo a desenvolver à volta de certos padrões e estilos de vida e a algumas mensagens cientificamente mal sustentadas que têm vindo a denegrir o aspeto nutricional do leite”, disse Paulo Leite.

 

Produção de leite gordo em segredo estatístico 

 

As estatísticas agrícolas do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que a produção de leite gordo, entre 2010 e 2012, acompanhou o crescimento do leite para consumo em geral, mas tornam-se inacessíveis a partir daí por motivos de segredo estatístico.

Em 2012, as estatísticas agrícolas obtidas a partir do inquérito anual à recolha, tratamento e transformação do leite indicavam que, naquele ano, no âmbito do leite para consumo, se produziram 108.017 toneladas de leite gordo, 4,2% acima do valor atingido em 2011, ano em que já havia subido 7,9% em relação ao ano anterior.

No geral, o leite para consumo também subiu ao longo desses anos, embora em percentagens mais reduzidas: das 830.900 toneladas de leite para consumo em 2010 houve um crescimento de 2,4% para 851.051 no ano seguinte e de cerca de 1% para 2012.

Nas estatísticas agrícolas de 2013, os números de leite cru e de leite gordo, inclusive os de 2012, já aparecem omissos, o que se repete em 2014.

De acordo com a lei do Sistema Estatístico Nacional (SEN), “o segredo estatístico visa salvaguardar a privacidade dos cidadãos e garantir a confiança no SEN”.

Enquanto os dados disponíveis, até 2012, mostram uma tendência de crescimento quer do leite em geral quer do leite gordo desde 2010, os números do leite para consumo passam a cair a partir daí até 2014.

Por outro lado, o leite meio-gordo (para o qual continua a haver dados até 2014) praticamente estabiliza, ou seja, das 642.918 toneladas produzidas em 2012, passa para 646.247 em 2013 e reduz-se ligeiramente um ano depois para 645.389.

Assim, em 2013 o valor do leite para consumo já é de 834.470 toneladas, o que representou uma redução de 2,9%, seguindo-se uma quebra ligeira de 0,4% para as 831.530 toneladas em 2014.

Já a diferença nos 11 primeiros meses de 2015 face a igual período de 2014 é mais acentuada: de acordo com o boletim mensal de agricultura e pescas de janeiro, onde se encontram dados até novembro do ano passado, a quebra no leite para consumo era de 11,1%, passando de 767.769 toneladas para 682.650.

Os números desta década estão distantes dos que se podiam encontrar nas estatísticas agrícolas há 10 anos, por exemplo em 2005, quando o leite para consumo se aproximou do milhão de toneladas e o leite gordo produzido se fixou nas 177.742 toneladas, vindo a descer até 2009.

Em 2005, o leite meio-gordo estava nas 667.514 toneladas produzidas, subindo para 671.064 em 2006, seguindo-se uma quebra para 648.185 toneladas em 2007.