Uma “deposição de crânios humanos”, que os arqueólogos apontam como “grande raridade”, é a revelação da campanha arqueológica no complexo pré-histórico dos Perdigões, na herdade do Esporão, em Reguengos de Monsaraz, que decorre até ao final do mês.

O complexo dos Perdigões foi construído há 5.000 anos, e tem sido alvo de uma intervenção arqueológica sistemática desde 1996, ao longo de cerca de 20 hectares, estando datado do Neolítico e do Calcolítico, entre os anos 3.500 e 2.000 antes de Cristo.

Os crânios humanos constituem uma das descobertas da campanha, a que se juntam outras como uma provável segunda sepultura coletiva, "tholos", e uma cabana, assim como artefactos de "sofisticado detalhe", como disse à Lusa um dos arqueólogos, que escava esta estrutura.

“Registámos uma descoberta de grande raridade, com fortes indícios de ter sido uma deposição intencional e ritualizada de restos de crânios humanos, parte deles com sinais de terem sido queimados, incluindo os de uma criança de cerca de três anos, em associação a restos de ossos de animais, em depósitos de terra que preenchiam um dos fossos nos Perdigões”, disse a arqueóloga Mafalda Capela.

“Esta estrutura delimitava um dos recintos cerimoniais que, durante o terceiro milénio antes de Cristo, foi construído neste enorme sítio, que teve grande importância para comunidades dispersas por um amplo território”, acrescentou.


Esta e outras descobertas “solidificam a ideia que temos sobre este recinto, que não era um povoado, mas antes um espaço para onde convergiam gentes vindas de muitos lados da Península Ibérica, algumas até de mais longe, com o objetivo de realização de práticas funerárias e rituais relacionados com a morte e, consequentemente, com a vida”, disse à Lusa a arqueóloga Mafalda Capela.

“Existem ainda, hoje em dia, paralelos deste tipo de prática, o que reforça esta nossa convicção”, afirmou.


Uma outra estrutura foi também descoberta, “que, pela sua configuração, poderá ser uma sepultura tipo ‘tholos’ [sepultura coletivamente], típica dos momentos mais tardios do megalitismo”, disse a mesma fonte.

Foi também “descoberta uma estrutura arquitetónica circular na área central do complexo arqueológico, com entrada orientada a nascente, nomeadamente ao quadrante situado entre os solstícios de verão e de inverno”.

“Temos uma dúvida, se será uma estrutura habitacional ou antes um espaço associado a cerimónias específicas”, referiu à Lusa a arqueóloga.


Mafalda Capela realçou que as populações que construíram o complexo dos Perdigões “tinham um conhecimento profundo de astronomia e do terreno em que construíram”, dando aos investigadores uma ideia de que eram “pessoas intelectualmente sofisticadas e complexas e cujas preocupações não eram exclusivamente de sobrevivência”.

“O complexo teve um uso intensivo durante 1.500 anos, precisamente na transição de calcolítico para o neolítico e, sem conhecermos as causas, de um momento para o outro foi abandonado”.


A arqueóloga disse ainda terem sido encontrados artefactos em pedra, cerâmica e osso “que são sempre muito espantosos, pela beleza estética, pelo detalhe e pela qualidade”.

Segundo a mesma fonte, as escavações, sob a responsabilidade da Era-Arqueologia, lideradas pelo arqueólogo Antonio Valera, são levadas a cabo por uma equipa internacional de 20 arqueólogos.

Até ao próximo sábado o complexo está aberto ao público para visitas guiadas, com as escavações a decorrer, e outras atividades relacionadas com o quotidiano pré-histórico, nomeadamente uma ceia neolítica na sexta-feira.