A freguesia de Carnide vai ser o terceiro local de funcionamento da Feira Popular de Lisboa, depois de Palhavã e de Entrecampos. O objetivo é reabilitar uma nova zona da capital, recuperar memória antigas, porque a Feira Popular está na mente de todos os alfacinhas, e até de todos os portugueses. Foi fundada a 10 de junho da 1943 no Parque José Maria Eugénio, na Palhavã, local onde tinha estado instalado o Jardim Zoológico de Lisboa, 45 anos antes, e onde hoje se encontra a Fundação Calouste Gulbenkian.
 

Ideia de um jornalista

 

A ideia saiu da cabeça de João Pereira da Rosa, diretor do jornal “O Século”, e tinha como objetivo inicial recolher fundos para a colónia balnear infantil do jornal. A Feira Popular foi assim criada inicialmente para financiar férias de crianças carenciadas e, mais tarde, passou a financiar toda a ação social da Fundação O Século. 


A colónia já tinha proporcionado férias a mais de 30 mil crianças e o financiamento estava a tornar-se difícil, pelo que João Pereira da Rosa decidiu criar um financiador empresarial para a obra e pediu autorização para instalar uma feira em Lisboa.
 
Leitão de Barros e Gustavo Matos Sequeira criaram assim a Feira Popular de Lisboa, que seria  inaugurada pelo Presidente da República, general Óscar Carmona, e pelo ministro das Obras Públicas e Comunicações, engenheiro Duarte Pacheco.
 
Na noite da inauguração, cerca de 90 mil lisboetas acorreram à abertura do chamado “Luna Parque”, na “ânsia de assistir a um espetáculo de extraordinário bom gosto, de animação e de colorido”, escrevia na altura o “Diário de Notícias”.
 
O mesmo “Diário de Notícias” referia que durante todo o Verão de 1943, o Luna Parque iria constituir o passeio predileto dos “alfacinhas” que ali podiam encontrar todo o tipo de diversão: desde barracas de tiros ao alvo, de refrescos, de flores e manjericos a bares “graciosíssimos”, restaurantes, esplanadas com cinema e variedades, e até mesmo uma “garrida praça de touros” e stands industriais e comerciais.
 
Em 1956, multidões ali assistiram às primeiras emissões da RTP – Rádio Televisão Portuguesa.
 

Nova feira, novas multidões
 

A Feira Popular manteve-se em Palhavã até 1956 e, a 24 de junho de 1961, abriu em Entrecampos, nos terrenos anteriormente ocupados pelo Mercado Geral de Gados, com o intuito de atrair mais multidões.

Em Entrecampos já não havia o famoso "Lago dos Namorados" que, em Palhavã, serviu de cenário a muitos pares de apaixonados, nem funcionou o não menos famoso "Rotor", que tinha como principal atração levantar as saias às meninas que se atreviam a entrar no também chamado "Cyclotron".

De resto, em 42 anos, houve de tudo: carrinhos de choque, comboio fantasma, astrólogos, carrosséis, montanha-russa, a grande roda, o poço da morte e, claro, os comeres e beberes da praxe, onde a sardinha assada era rainha e as farturas constituíam o toque final.

A Feira Popular era também, no final do ano escolar, o grande ponto de encontro de milhares de estudantes que ali iam festejar mais um ano passado. 
 
Entretanto, em 1998 foi criada a Fundação "O Século" para prosseguir e desenvolver a obra social da Colónia Balnear Infantil e era a fundação que "geria" a feira.
 
 

Morte anunciada e imbróglio judicial

 
 
Por estar envelhecida e degradada, a Feira Popular de Lisboa fechou portas a 28 de março de 2003 e nunca mais Lisboa voltou a ter um parque de diversões.
 
O então presidente da Câmara, Pedro Santana Lopes, anunciou que tencionava criar um novo parque de diversões, mais moderno, mas tal não iria acontecer até 2015.
 

Três anos depois de ter fechado portas, começou um imbróglio judicial em torno dos terrenos de Entrecampos, que começou quando a autarquia e a empresa Bragaparques fizeram uma permuta daquele espaço com o Parque Mayer.

 
Em 2005, os terrenos do Parque Mayer, pertença da Bragaparques, passaram para a posse da Câmara de Lisboa, e a empresa de Domingos Névoa recebeu metade do lote de Entrecampos, anteriormente municipal.
 
Em julho daquele ano, a Bragaparques invocou o direito de preferência na hasta pública para adquirir o resto dos terrenos de Entrecampos, de 59 mil metros quadrados, por 57,1 milhões de euros. O valor de licitação por metro quadrado era de 950 euros e a P. Mayer SA, empresa da Bragaparques, pagou 967 euros. Mais tarde, o negócio seria inviabilizado por um tribunal.
 
Em 2012, o Tribunal Central Administrativo declarou nula a permuta entre a Câmara de Lisboa e a empresa Bragaparques, que recorreram.
 
Dois anos depois, o então presidente da Câmara de Lisboa António Costa anunciou um entendimento com a Bragaparques, no âmbito do qual a autarquia se comprometia a pagar 100 milhões de euros à empresa pelos terrenos da antiga Feira Popular.
 
A 19 de outubro de 2015 realizou-se a hasta pública promovida pela autarquia lisboeta para a venda daqueles terrenos, que tinha um valor base de 135,4 milhões de euros, mas não apareceu nenhum interessado, tendo sido marcada uma nova data para dezembro.
 

No meio de todo este processo, a Câmara de Lisboa cedeu à Fundação "O Século" a gestão de um posto de abastecimento de combustível em Moscavide como forma de a compensar pelo encerramento da Feira Popular, principal fonte de financiamento da obra social.

 
Uma compensação que, conforme disse à Lusa em 2013 o presidente da fundação, Emanuel Martins, fica longe da verba que a exploração do antigo parque de diversões garantia.
 
Quando a Feira Popular fechou, a autarquia e a fundação acordaram o pagamento de uma indemnização anual de cerca de 2,5 milhões de euros, correspondente à média anual de lucros do espaço de diversões, e com o compromisso de a instituição vir, no futuro, a construir um novo parque, onde a autarquia indicasse.
 
Mais tarde, o valor da indemnização seria reduzido para dois milhões de euros, tendo a câmara suspendido depois o pagamento da verba, alegando falta de dinheiro, o que deixou a fundação em grandes dificuldades de subsistência.
 

 Renascer numa nova casa

 
Esta terça-feira, 12 anos depois do encerramento da Feira Popular, o presidente da Câmara de Lisboa anunciou que o futuro parque de diversões da cidade vai abrir em Carnide. De acordo com Fernando Medina, a “terceira casa” da Feira Popular será “diferente” da anterior, já que funcionará num espaço de 20 hectares, "quatro vezes maior" do que era, e que é para abrir "o mais rápido possível".
 


Depois de Palhavã e de Entrecampos, a Feira Popular de Lisboa vai regressar, mas desta vez para Carnide, uma feira mais moderna, mais ajustada aos dias de hoje, mas crê-se que com a mesma alma alfacinha.