Os oficiais das Forças Armadas cancelaram o protesto marcado para amanhã, confirmou a TVI24. Em alternativa, os oficiais do Exército que estavam a organizar o protesto enviaram uma carta ao Presidente da República, onde deixam evidentes as razões do descontentamento. Em causa, nomeadamente, o tratamento dado pelos partidos políticos à questão do roubo de armas em Tancos.  

O protesto simbólico promovido por um grupo de oficiais do Exército na reserva e na reforma estava marcado para esta quarta-feira junto ao Palácio de Belém, em Lisboa. Foi cancelado porque os militares responsáveis pela organização entendem não ser proveitoso acrescentar mais instabilidade ao país, que o protesto poderia acarretar, adiantou fonte ligada à manifestação simbólica à TVI24.

A convocatória de entrega simbólica de espadas foi cancelada por lealdade ao Comandante Supremo das Forças Armadas e aos Chefes Militares que na sua função difícil e no activo ainda defendem os seus homens, que é o que estão a fazer neste preciso momento", acrescentam, em documento escrito enviado às redações.

Na carta aberta ao Presidente da República, os militares manifestam "o total apoio às chefias militares e a todos os generais do Exército e das Forças Armadas".

Talvez pensassem que vínhamos concretizar o “pedido de sangue” e de exonerações. Pois bem enganaram-se, não o iremos fazer, nem seguir o exemplo desastroso de uma classe política que dentro das nossas fileiras deixou de ser respeitada."

 

O Chefe do Exército é um homem, tem a sua família, a sua carreira, pensa e sente como todos nós, e não temos dúvidas que está a dar o seu melhor com honestidade, dedicação, porém sujeito a uma pressão política, institucional e de comunicação social e opinião pública brutal e constante."

Na missiva, que seria lida à comunicação social esta quarta-feira e posteriormente entregue na Presidência da República, os militares atacam os partidos políticos e os pedidos de demissão de ministros e de atribuição de culpas, "quer relativas aos incêndios, quer relativo agora ao roubo de munições". "O circo não para, o mau exemplo e o mau serviço político está a destruir a nação", sublinham.

O país está cheio de doutores, de comentadores que vão do futebol ao terrorismo e até a especialistas de armamento ou de como se fazem ovos estrelados, temos muitos doutores e poucos aprendizes, o sinal de ignorância é a presunção do saber e estes contaminam com opinião um público desinformado e influenciável e estão quase sempre ligados a um lado político ou uma ideologia partidária, gerando ainda mais confusão e divisão."

 

Quando é que temos uma classe política com verdadeiro sentido de serviço público?", questionam.

Os oficiais na reserva argumentam ainda que "o CEME não exonerou uns coronéis": "Não, não o fez, a política fê-lo e fê-lo pelo estado das coisas a que chegámos de fragilidade material e de recursos".

Na carta, criticam ainda a falta de investimento nas "Polícias, na GNR, nos Guardas Prisionais". "Equipar as Forças Armadas é um investimento na vida, na segurança, no futuro incerto que nos espera, na moral e na ética dos jovens, na paz e, acima de tudo, no amor ao País", resumem.

Os oficiais previam concentrar-se pelas 11:30 junto ao Monumento Nacional aos Combatentes do Ultramar, junto ao Museu do Combatente, em Belém, e seguir para o Palácio de Belém, onde iriam depor as espadas.

Esta terça-feira, a Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA) demarcou-se deste protesto. Em declarações à Lusa, o presidente da AOFA, coronel António Mota considerou que o afastamento dos cinco comandantes de unidade "é um ato de comando" do Chefe do Estado-Maior do Exército, independentemente de se concordar com a decisão.

O CEME utilizou essa prerrogativa que só a ele lhe cabe. Antes nomeou-os e agora exonerou-os temporariamente. Isto é um ato de comando, independentemente de nós concordarmos ou não é um assunto interno do Exército e que não está no âmbito da associação", explicou.

Na sua página na rede social Facebook, o comandante das Forças Terrestres, António de Faria Menezes, também desencorajou à participação no protesto, ao afirmar, numa publicação colocada segunda-feira à noite, que "ser soldado não é arrastar espadas nem condecorações".

As Forças Armadas e o Exército que sirvo assentam na disciplina. O tempo que vivemos exige sentido de estado, serenidade e responsabilidade aos militares do ativo, reserva ou reforma, todos eles dignos e relevantes no apoio do todo que é Portugal", afirmou o tenente-general Faria Menezes.

 

Vivemos num Estado de Direito e as instituições funcionam. Respeitemos os portugueses e sejamos, como sempre, exemplo", acrescentou.

O presidente da comissão de Defesa Nacional, Marco António Costa, também apelou hoje à "contenção", apesar de compreender o sentimento "de alguma apreensão e até revolta" de "alguns senhores oficiais".

Compreendo que haja da parte de muitos senhores oficiais das Forças Armadas um sentimento de alguma apreensão e até revolta. Os acontecimentos têm-se sucedido sem uma explicação lógica entre si, mas o parlamento contribui sempre de forma serena e responsável para a manutenção de uma ordem institucional absolutamente impecável", afirmou.

O Exército divulgou quinta-feira que dois paiolins dos Paióis Nacionais de Tancos foram assaltados, registando o furto de armamento de guerra. A comissão de Defesa Nacional aprovou hoje as audições parlamentares do ministro da Defesa e do chefe do Estado-Maior do Exército, que não tem ainda data marcada, mas que os deputados querem que se realizem ainda esta semana.