O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, defendeu hoje que só é possível combater o terrorismo internacional se forem discutidos "sem tabus" os interesses que o financiam, criticando "hesitações e ambiguidades de certas organizações e países".

"Não é sério querer discutir e combater o terrorismo internacional sem discutir seriamente e sem tabus aquelas formas e aqueles interesses que criaram o terrorismo e o financiaram. O mínimo que se pode dizer é que ainda hoje olham para esse fenómeno sem a devida determinação em combatê-la", afirmou o ministro, durante uma audição na comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas.

A primeira ida do ministro ao parlamento desde a posse do Governo e que estava prevista para a altura da discussão do Orçamento do Estado, foi antecipada para hoje devido a requerimentos do Bloco de Esquerda e do PSD para discutir "fatores de risco internacional", como o terrorismo, as tensões no Médio Oriente e os testes nucleares da Coreia do Norte.

Santos Silva considerou que a ação da comunidade internacional "tem certas dificuldades e gera certas perplexidades que não devem ser passadas em claro", apontando a "demasiada ambiguidade no comportamento de certas organizações e países face a estes fatores de risco".

"Há tensões em organizações e países que desempenham papéis chave - entre NATO e Rússia, entre União Europeia e Rússia, entre Estados Unidos e China - que devem ser geridas politicamente de forma a não desarticularem o esforço internacional de minimização destes fatores de risco".

Nesta parte da audição, a troca de palavras foi mais intensa entre o ministro e a deputada do PSD Paula Teixeira da Cruz, que o acusou de fazer uma "confusão perigosa entre islamismo e 'jihadismo'", alegação que Santos Silva rejeitou, afirmando que nunca fará confusão entre Islão e islamismo e que o que "nunca" se deve fazer é "confundir a religião com a leitura política da religião feita por uma das suas variantes".

A antiga ministra da Justiça do Governo PSD/CDS-PP questionou o chefe da diplomacia sobre a posição de Portugal face a medidas de controlo de refugiados adotadas por países como a Dinamarca, Suécia ou Hungria, "em relação a um património cada vez menos comum, os direitos humanos".

Sobre "involuções em vários países europeus", elas "devem ser combatidas, mostrando, pelo exemplo, que é possível ter políticas de acolhimento aos refugiados", disse Santos Silva, citando o programa de acolhimento a estudantes sírios, lançado em 2013 pelo antigo Presidente da República Jorge Sampaio.

Quanto ao acolhimento de refugiados na Europa, o governante lamentou que a recolocação esteja "muito atrasada".

Sobre a Coreia do Norte, Portugal acompanha a condenação da União Europeia ao "ensaio tracinho provocação que o regime norte-coreano encenou há umas semanas", disse o ministro.

A única forma de lidar é "continuar a agir em prol da não-proliferação de armas nucleares".

"Os processos de dissuasão têm funcionado em relação a todos os países relevantes, com a exceção preocupante da Coreia do Norte", considerou.