Na última semana, a TVI revelou como muitos congressos médicos são afinal simples disfarce para actividades turísticas. A Ordem dos Médicos (OM) já fez queixa ao Ministério Público (MP), mas a verdade é que há mais de um ano e meio que o MP apreendeu documentação sobre o assunto, mas o processo nunca mais andou.

A TVI teve acesso a documentos que indiciam que o laboratório fazia ofertas aos médicos em vales de compras e até em dinheiro. O laboratório J. Neves respondeu por escrito, desmentindo qualquer ilegalidade.

Médicos pagos para ouvir delegados

Também na última semana, noutro caso, a Sanofi-Aventis, a segunda companhia farmacêutica que mais factura em Portugal, «comprou» visitas médicas. Não foram os delegados de informação médica a visitar os médicos, mas o contrário.

No fim, a tarefa do médico foi avaliar se esse vendedor conseguiu comprometê-lo a receitar esses remédios. A empresa declara que só contratou os médicos porque está preocupada com a formação científica dos seus profissionais.

Tudo se passou na quinta-feira, no Hotel Porto Palácio. Estava prevista a participação de 54 médicos, compareceram 50 de três especialidades: Cardiologia, Medicina Interna e Clínica-Geral. Cada um recebeu 450 euros por uma tarefa muito específica: avaliar, numa simulação de visita médica, os delegados de informação médica da multinacional farmacêutica Sanofi-Aventis.

Avaliar a capacidade dos vendedores

A TVI teve acesso ao planeamento dos encontros e à grelha de avaliação com que os médicos classificaram os funcionários da Aventis. Os prescritores, entre outras coisas, avaliaram a capacidade dos vendedores para obterem um compromisso deles, no sentido de receitarem medicamentos da empresa, como o Plavix, primeiro medicamento do ranking de vendas português, que facturou 70 milhões de euros no ano passado e o Relmus e Triapin, que facturaram cerca de 4 milhões cada um. O Estado investiu nestes produtos 47 milhões de euros e os doentes 31 milhões em pagamentos directos na farmácia.

A Indústria farmacêutica treina os delegados para obterem compromissos de prescrição. É na busca desses compromissos que normalmente os delegados oferecem a médicos o patrocínio para congressos, viagens turísticas disfarçadas de congressos e outras ofertas, umas legais, outras na fronteira da legalidade e outras ainda manifestamente corruptas, como a oferta de dinheiro vivo.

Sem promessas...

Neste caso, a TVI pode assegurar que os delegados da Sanofi-Aventis não prometeram rigorosamente nada aos médicos, nem o pagamento de 450 euros foi objecto das conversas. Estava era previsto que os delegados recebessem uma lista com a identificação dos médicos participantes, útil para eles em visitas médicas futuras, mas tal também não aconteceu durante a semana.

A empresa não disponibilizou ninguém para uma entrevista, mas enviou um comunicado, informado que «a sanofi-aventis iniciou há quatro meses um programa de formação dos seus delegados com o objectivo de fornecer a melhor informação sobre a correcta utilização dos medicamentos que comercializa».

Para isso, contratou uma empresa de formação, chamada Chetochine, e foi esta a solicitar «o apoio de médicos como garantia de qualidade da transmissão da melhor informação sobre a correcta utilização dos medicamentos».

A legislação portuguesa proíbe a indústria farmacêutica de oferecer dinheiro a médicos, mas abre a porta ao pagamento de honorários pela participação activa deles em acções de formação ou promoção de medicamentos, desde que isso não implique contrapartidas nas receitas. A Sanofi-Aventis mostra-se segura da legalidade desta visitas médicas invertidas e a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde decidiu investigar o assunto, para tirar a limpo se os médicos violaram ou não alguma das suas obrigações para com o Estado.