A «onda republicana» do passado dia 4 de novembro foi ainda maior do que as sondagens e os analistas previam.
 
Sendo as «midterms» uma soma de várias eleições diferentes, com realidades muito diversas de estado para estado, uma leitura nacional torna-se complicada. Mas a tendência, desta vez, foi tão clara que é quase obrigatório apontar o maior perdedor das intercalares: o Presidente dos EUA.
 
Barack Obama vai encarar os seus últimos dois anos na Casa Branca num cenário político totalmente hostil: terá as duas câmaras do Capitólio com controlo republicano (forte maioria na House of Representatives, pequena maioria no Senado, embora os democratas disponham de votos suficientes para minorias de bloqueio) e ainda é preciso lembrar que, nos governos de estado, os republicanos aumentaram largamente a sua vantagem, passando a liderar em alguns territórios que os democratas encaravam como seus, sobretudo na Costa Leste.
 
Fim de linha para Barack Obama? Não exatamente.
 
Que as coisas poderão ficar ainda mais complicadas para o Presidente, isso parece uma evidência. Basta olhar para os números tão antipáticos para os democratas.
 
Mas há que antecipar que clima político poderá existir em Washington nos próximos dois anos.
 
Do lado republicano, a grande vitória do passado dia 4 fez aumentar a expetativa em relação a um possível sucesso do nomeado presidencial do partido para 2016.
 
Os pretendentes começam a fazer fila: Scott Walker, governador reeleito no Wisconsin (estado que votou largamente em Obama em 2008 e 2012), passou a ser um forte candidato, juntando-se a nomes como Jeb Bush, Chris Christie, Rand Paul, Ted Cruz ou Marco Rubio (os últimos três sentam-se no Senado) ou até Paul Ryan, congressista que foi «vice» de Mitt Romney, em 2012.
 
Ora, estes candidatos representam diferentes abordagens na oposição a Obama e na visão do que deve ser a América.
 
Os próximos dois anos deverão ser tudo menos pacíficos no lado republicano e há, por isso, uma carta decisiva no baralho do GOP: Mitch McConnell, o experiente senador do Kentucky, eleito pela sexta vez para o cargo, que será o líder na nova maioria no Senado.
 
O que deve fazer Obama perante esta nova realidade?
 
Tudo indica que fará, essencialmente, três coisas:
 
1) reforçar a frente externa, mostrando que quer deixar uma marca do seu poder americano neste mundo cada vez mais complicado (combate ao Estado Islâmico, contenção de Putin e de ameaça russa, posicionamento americano na Ásia, confirmado por estes dias com a grande viagem que o Presidente fez ao continente e que redundou em acordo com a China);
 
2) procurar consenso em dois ou três temas (possivelmente reforma fiscal, aumento do salário mínimo e política energética, que tem tido bons resultados no caminho de independência americana em relação à Rússia e ao Médio Oriente)
 
3) avançar para ações executivas (decisões do Presidente que não precisam de ir ao Congresso) em temas como a Imigração ou a Saúde, onde parece não haver hipótese de acordo mínimo com os republicanos e que Barack Obama entende serem fundamentais para a agenda do seu segundo mandato.
 
Precisamente sobre este ponto, a «Fox News» avançou ontem com a indicação de que Obama se prepara para avançar com medidas executivas (sem passar pelo Congresso) para impor as suas ideias sobre Imigração.
 
O Presidente não está disposto a ser «lame duck» (pato coxo) perante Capitólio totalmente republicano e deverá anunciar, no início da próxima semana, um plano de dez medidas que deverá incluir a suspensão da deportação de milhões de imigrantes ilegais.
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca