De Norte ao Sul do país, os portugueses já cortam na cultura. As companhias acabam por se ressentir da falta de público, qualidade dos espectáculos e ainda se queixam dos subsídios insuficientes num ano em que, para além de tudo o resto, as verbas estatais para o sector são menores.

«Tem-se vindo a sentir a crise no público. Já no segundo semestre de 2007 tivemos menos 40% de espectadores. Costumávamos ter uma afluência de três dígitos e agora temos de dois», revelou à Agência Financeira o director d`A Companhia de Teatro do Algarve (ACTA).

António Marques diz também que seria de esperar que, com o novo ano, os subsídios aumentassem, mas que isso não vai acontecer. «Desde a fundação da companhia, há 10 anos, que recebemos financiamento do Estado. Há quatro anos que este está estável nos 200 mil euros». Para 2009, foi proposto receberem 201,5 mil euros, mas a companhia vai reclamar com o financiamento, acreditando que a verba é pequena para fazer face à situação actual.

Combater a crise com... cultura

Além de sublinhar que, este ano, a verba do Estado para a cultura é menor, António Marques considera que «o critério que está a ser utilizado não é aquele que gostariam». «Não vamos conseguir desenvolver o que queremos».

Subsídio é uma «esmola»

Mas não é o único. O director do Teatro da Comuna, em Lisboa, também contesta. «Continuamos a ter 20 pessoas, ou seja, é uma companhia grande. Costumávamos receber 350 mil euros, que já era uma esmola, e agora atribuíram-nos menos 400 euros», referiu João Mota à AF. O responsável deixou também transparecer o dissabor com os critérios: «Muitos recebem o dobro».

No Porto, o director do Sá da Bandeira responde que «é evidente que o teatro está em crise». «Há falta de público. Acho que se nota em todas as salas», apontou Manuel Ribeiro, que por dirigir um teatro comercial não recebe apoios estatais. «As receitas de bilheteira, com dificuldade, ainda estão a compensar os gastos, mas as perspectivas não são boas». A Agência Financeira tentou falar também com o Teatro Nacional São João, que se recusou a prestar declarações.

Cinema gera receitas de 69 milhões

Para o director da ACTA, no Algarve, os actores estão ainda «sobrecarregados». «Têm três projectos ao mesmo tempo e isso reflecte-se depois inevitavelmente nos espectáculos que, aliás, se fazem com menos pessoas».

Companhias portuguesas não conseguem concorrer com resto da Europa

Por seu lado, o responsável da Comuna destaca que costumam ter duas peças ao mesmo tempo, mas que face às disponibilidades monetárias, em 2009, só é possível manter uma. Enquanto não sabia o subsídio deste ano, que só foi definido este mês de Março, João Mota teve que pedir dinheiro emprestado ao banco para conseguir pagar os ordenados dos actores.

Para contrariar esta tendência, esta companhia do Sul do país tem estabelecido parcerias com a associação de comerciantes e com autarquias da região, bem como a distribuição de «vouchers», de forma a promover as peças. Este ano, o responsável está ainda a estudar outras formas de contornar a crise face a perspectivas negativas.

O que ainda é visto como um obstáculo, para António Marques, é o facto de não conseguir concorrer com o exterior. «Temos uma parceria com um teatro na Alemanha e o mercado internacional é um objectivo, mas estamos em patamares completamente diferentes dos nossos pares europeus».