Por causa da crise, os hábitos de consumo estão a mudar. Os portugueses ficam mais em casa, compram o mais barato e o essencial, mas para compensar investem mais na alimentação e no bem-estar. E parecem estar a ganhar consciência ambiental.

«A crise trouxe um recolhimento das pessoas ao quadro doméstico. Mas dentro de casa mantêm-se os hábitos e até se investe mais na alimentação», afirmou à Lusa a socióloga Luísa Smith, que fez no ano passado, no Instituto de Ciências Sociais, em Lisboa, um estudo sobre o consumo dos portugueses.

Hábitos de consumo dos portugueses mudaram

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As conclusões desse trabalho indicam que a crise económica tem levado os portugueses a melhorar o seu bem-estar em casa, compensando assim a mudança de hábitos imposta pela crise.

«Há melhor alimentação dentro de casa, para as pessoas estarem melhor consigo próprias face à crise», adianta a socióloga, na véspera do Dia Internacional do Consumidor, que se assinala no domingo.

A investigadora defende que a crise actual não é só económica, mas também energética e alimentar. Acredita, por isso, que «depois da crise nada vai voltar a ser como antes», uma vez que o problema das energias fósseis (petróleo) vai persistir mesmo quando o país regressar à bonança e que é inevitável uma mudança radical nos hábitos dos portugueses, que «têm uma vida dependente do carro e das importações».

Em Inglaterra discute-se mesmo o regresso ao consumo dos produtos locais: «O Governo britânico tem financiado alguns projectos nesse sentido», contou a socióloga Monica Trunninger, que fez parte de um grupo de trabalho constituído para um desses projectos, através de uma universidade do País de Gales, onde trabalhou até há poucos meses.

As conclusões não são, no entanto, absolutas. O proteccionismo pode ser amigo ou inimigo do ambiente, consoante o tipo de bem de consumo em causa.

«Gasta-se mais energia a produzir alfaces numa estufa em Inglaterra do que a importá-las. Há situações em que o proteccionismo não faz sentido, mas noutros casos faz. É isso que o Governo está a tentar perceber, assim como a sensibilidade dos consumidores a esta questão», explicou.

Em Portugal, ao contrário do que se poderia pensar em tempos de crise, os produtos biológicos estão em franco crescimento: «Acho que há uma maior consciência ambiental. No ano passado a Raízes cresceu 70 por cento e este ano, no primeiro trimestre, aumentou as vendas em 100 por cento», disse Pedro Rocha, dono da empresa Raízes, que comercializa produtos biológicos na região norte.

Também na Miosótis, uma das três lojas de produtos bio na cidade de Lisboa, a crise faz-se sentir mas as vendas não param de aumentar.

«O consumo por pessoa baixou um pouco com a crise, mas há cada vez mais pessoas a comprar na loja», contou Ângelo Rocha, um dos sócios da Miosótis, explicando que os seus clientes são principalmente mães que procuram legumes sem químicos para as primeiras sopas dos bebés e pessoas preocupadas com a sua saúde e o ambiente.