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Saramago, um «génio incompreendido»

Populares juntam-se frente à Câmara de Lisboa para homenagear o escritor

Por: Redacção / Manuela Micael  |  20- 6- 2010  12: 4

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José Saramago 1922 - 2010

Susana Estrela tem 35 anos. Tomou contacto com a obra de José Saramago ainda adolescente. Tinha «16 ou 17 anos» quando leu o «Memorial do Convento» e achou «avassalador». Por isso mesmo, não quis deixar de estar presente no último adeus ao escritor.

«Vim prestar homenagem ao homem que foi Saramago. Li-o e leio-o. O ¿Memorial do Convento¿ tem uma das melhores entradas da literatura mundial», conta.

«Era uma pessoa que tinha as origens que tinha e nunca as renegou. Se calhar, foi aproveitado pelas elites intelectuais e ele sabia a importância que tinha a nível intelectual», considera.

Da «relutância» ao agradecimento

Ismael Gonçalves recorda o tempo em que era professor de português e o dia em que o escritor visitou a escola que tem o seu nome, em Mafra: «foi em Abril de 1999. Passei o dia com ele e pude concluir que era uma pessoa sensível não era propriamente aquele homem com cara de mau e austero que muitos viam. Era de conversa fácil e acho que é uma falsa questão dizerem que é duro e incomunicável».

O professor Ismael já se reformou, mas ensinou Saramago durante mais de uma década a adolescentes. Agora continua a leccionar, mas aos mais velhos, na Universidade Sénior. De novos e velhos, retira a mesma impressão: «a escrita dele tem convenções muito próprias. Explicadas essas convenções, é de fácil leitura e compreensão. Muitos alunos, que de início demonstram alguma relutância, acabam por me vir agradecer por lhes ter dado a conhecer a obra de Saramago».

«Projectou Mafra no livro que o projecto»

Ana Gonçalves ainda ensina português na Escola Secundária de Mafra. Veio da terra do convento, cenário de um dos mais conhecidos livros do escritor, de propósito, para se despedir do «homem que muito admirava». «Estou aqui pelo grande escritor, pelo génio da literatura que foi, por ser professora de português e por ensinar Saramago», conta.

Ana estava no Conselho Executivo da Escola José Saramago, quando esta tomou o nome do escritor. «Resolvemos colocar o nome dele à escola porque ele projecto Mafra no mundo, no livro que o projecto a ele no mundo», revelou.

«Homenagem ao cidadão da Literatura»

Teresa Salema é presidente do Pen Clube português, que faz parte do Pen Clube Internacional, que defende escritores perseguidos por todo o mundo. Saramago não terá sido propriamente perseguido, mas Teresa considera que Saramago «foi muito incompreendido». «Na radicalidade das suas afirmações, apenas pede tolerância para as posições diferentes», disse.

Teresa veio acompanhada de Maria do Sameiro Barroso, escritora e também representante do Pen Clube. Estavam em Barcelona, numa conferência, quando souberam da morte do escritor. Vieram «prestar homenagem ao grande cidadão da literatura».

Nem uma nem outra consideram que Saramago fosse um «homem de elites», apesar de admitirem que se tenha «tornado um homem de elites». Não se surpreendem que Saramago tenha tido, por exemplo, uma despedida mais modesta que Amália.

«Ele criou polémicas complexas, nomeadamente com a Igreja e Portugal é um país muito católico. A última polémica ainda mal assentou e ele acabou por morrer no auge dessa polémica», analisa Maria do Sameiro.

Ambas recordam o homem das letras, mas sublinham que «eram um escritor que intervinha na sociedade».

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