Por: Redacção / Manuela Micael | 20- 6- 2010 12: 4
Susana Estrela tem 35 anos. Tomou contacto com a obra de José Saramago ainda adolescente. Tinha «16 ou 17 anos» quando
leu o «Memorial do Convento» e achou «avassalador». Por isso mesmo, não quis deixar de estar presente no último adeus ao escritor.
«Vim prestar homenagem ao homem que foi Saramago. Li-o e leio-o. O ¿Memorial do Convento¿ tem uma das melhores entradas
da literatura mundial», conta.
«Era uma pessoa que tinha as origens que tinha e nunca as renegou. Se calhar, foi
aproveitado pelas elites intelectuais e ele sabia a importância que tinha a nível intelectual», considera.
Da
«relutância» ao agradecimento
Ismael Gonçalves recorda o tempo em que era professor de português e o dia em que
o escritor visitou a escola que tem o seu nome, em Mafra: «foi em Abril de 1999. Passei o dia com ele e pude concluir que
era uma pessoa sensível não era propriamente aquele homem com cara de mau e austero que muitos viam. Era de conversa fácil
e acho que é uma falsa questão dizerem que é duro e incomunicável».
O professor Ismael já se reformou, mas ensinou
Saramago durante mais de uma década a adolescentes. Agora continua a leccionar, mas aos mais velhos, na Universidade Sénior.
De novos e velhos, retira a mesma impressão: «a escrita dele tem convenções muito próprias. Explicadas essas convenções, é
de fácil leitura e compreensão. Muitos alunos, que de início demonstram alguma relutância, acabam por me vir agradecer por
lhes ter dado a conhecer a obra de Saramago».
«Projectou Mafra no livro que o projecto»
Ana Gonçalves
ainda ensina português na Escola Secundária de Mafra. Veio da terra do convento, cenário de um dos mais conhecidos livros
do escritor, de propósito, para se despedir do «homem que muito admirava». «Estou aqui pelo grande escritor, pelo génio da
literatura que foi, por ser professora de português e por ensinar Saramago», conta.
Ana estava no Conselho Executivo
da Escola José Saramago, quando esta tomou o nome do escritor. «Resolvemos colocar o nome dele à escola porque ele projecto
Mafra no mundo, no livro que o projecto a ele no mundo», revelou.
«Homenagem ao cidadão da Literatura»
Teresa
Salema é presidente do Pen Clube português, que faz parte do Pen Clube Internacional, que defende escritores perseguidos por
todo o mundo. Saramago não terá sido propriamente perseguido, mas Teresa considera que Saramago «foi muito incompreendido».
«Na radicalidade das suas afirmações, apenas pede tolerância para as posições diferentes», disse.
Teresa veio acompanhada
de Maria do Sameiro Barroso, escritora e também representante do Pen Clube. Estavam em Barcelona, numa conferência, quando
souberam da morte do escritor. Vieram «prestar homenagem ao grande cidadão da literatura».
Nem uma nem outra consideram
que Saramago fosse um «homem de elites», apesar de admitirem que se tenha «tornado um homem de elites». Não se surpreendem
que Saramago tenha tido, por exemplo, uma despedida mais modesta que Amália.
«Ele criou polémicas complexas, nomeadamente
com a Igreja e Portugal é um país muito católico. A última polémica ainda mal assentou e ele acabou por morrer no auge dessa
polémica», analisa Maria do Sameiro.
Ambas recordam o homem das letras, mas sublinham que «eram um escritor que
intervinha na sociedade».
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