Por: Patrícia Pires | 27- 8- 2010 22: 20
Doze anos na Casa Pia deixaram-lhe marcas profundas no corpo e na alma. Entrou na instituição aos sete anos e pouco tempo
depois já era abusado. Como se não bastasse, em 2006 quando já decorria o julgamento, sofreu um grave acidente de viação e
quase perdeu a vida. Estava com o agente de segurança pessoal, que o acompanhou ao longo do processo, quando este se despistou
na auto-estrada. Ficou com as pernas desfeitas e 30 por cento de incapacidade.
«Estava de cadeira de rodas, precisava
de cuidados», conta à TVI e, por isso, foi morar com a irmã. É provável que volta a ser operado, no entanto, a recuperação
foi boa. «Quando voltei a andar parecia um bebé, não me aguentava nas pernas», recorda.
Aos 23 anos de idade, «João»
venceu a lei das probabilidades e entrou, orgulhosamente, na Universidade. Começou a trabalhar cedo, aos 18 e sempre se sustentou
com o seu ordenado.
Em 2006, o acidente obrigou-o a parar durante dois anos. Nessa altura, valeram-lhe os 50 mil
euros de indemnização que recebeu por causa dos abusos sexuais. «Foi esse o meu suporte para ir vivendo, até porque a minha
família acabou por ir para fora do país. Fiquei sozinho e consegui sobreviver. Estudei, tirei cursos e a carta», lembra.
Com
alguma ironia, esse dinheiro «fez com que a vida tivesse sentido». Hoje, no banco, ainda guarda metade.
Além da namorada,
que não sabe tudo, poucos conhecem o seu passado e os seus dias são iguais aos de muitos jovens da sua idade: «trabalho, passeio,
faço natação. Vou ao cinema, teatro. Saio com os amigos».
Ao contrário de outras vítimas do processo da Casa Pia,
«João» não aponta o dedo à instituição: «Tenho boas memórias, não vou dizer que tudo é mau». Admite mesmo que os cuidados
que recebeu e a educação que tem «foi graças à instituição».
Entrou na Casa Pia, com a irmã, por ordem do tribunal.
A Justiça considerou que «não havia condições» para ficarem com os pais biológicos. Quis o destino, ou os adultos, que os
seus dias de internato não fossem tranquilos.
No entanto, o passado não o faz temer o futuro. E o que espera é muito:
«estou sempre a querer mais, mais. Quero tirar a licenciatura, acabar o mestrado e arranjar um emprego onde possa ser feliz.
Onde possa criar a minha família com as condições seguras que nunca tive. Dar amor, carinho e estar presente», explica.
O
processo da Casa Pia parece estar perto do fim. Ou pelo menos, uma das suas etapas. Numa linguagem jurídica pouco comum para
a idade, assume a fé de que se vai fazer justiça.
«A nossa justiça hoje em dia está muito forte. Os juízes são ímpares,
o que é mau é mau e o que é bom, é bom. O tribunal, a vara onde está é credível. Os juízes são credíveis e a própria juíza,
então nem se fala. Tem sido uma juíza exemplar, que não puxa para um lado, nem para o outro. É neutra».
Apesar de
não ter esquecido o passado diz que «está fechado» e não o quer «voltar a abrir». De olhos no amanhã, confessa que todos os
dias está a aprender coisas novas e a escolher com que cores vai pintar a sua vida.
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