"Não sou muito de paninhos quentes"

Assim arranca o argumentário. Passos Coelho vai direto ao assunto e diz que o Schäuble nunca deveria ter falado em um novo resgate financeiro a Portugal. Não devia, qualquer a motivação que tenha, até porque é ministro das finanças da zona euro. Admitiu que o alemão não é a sua especialidade, por isso mesmo teve de esperar pelo fim do dia para saber o que realmente tinha sido dito sobre Portugal.

"Quando estamos a falar de circunstâncias limite como são as que estão associadas a um pedido de ajuda externa tem de haver um comedimento muito grande, ainda para mais por parte de alguém que tem responsabilidades como ele tem", sustentou, lembrando, contudo, que esta é uma de entre várias declarações que vão aparecendo "denotando expetativa e desconfiança quanto ao caminho que está a ser seguido".

Pois, acrescentou, mesmo quando se fala sobre as sanções que podem ser aplicadas a Portugal, vê-se "um certo ceticismo a regressar quanto à forma como se pode perspetivar o desenvolvimento orçamental e económico em Portugal".

 

"Eu não fico a chorar sobre o leite derramado"

Declarações na imprensa, nada a fazer. Mas se o ministro das finanças alemão carregou no pedal, o líder do PSD pregou a fundo. Fala num ceticismo crescente na Europa em relação a Portugal, um cenário que recorda já ter visto no passado.

Não fala em Sócrates nem em resgate financeiro, muito menos em troika, mas revela que, nos parceiros europeus, começou a desenvolver-se a ideia de que "podemos estar novamente num caminho de incumprimento".

 

"Há quem goste muito de dourar a pílula"

E o líder do PSD é um deles. Recorda o famoso episódio de Maria Luís Albuquerque, quando, como ministras das finanças, afirmou que Portugal estava "de cofres cheios". Na altura, há cerca de um ano, estalou a polémica. Hoje, recorda que foram feitas "graçolas" sobre o assunto, mas agora "parece que dá jeito".

Passos Coelho afirma-se preocupado não só com a situação de Portugal, como com as consequências do Brexit e da fragilidade da banca italiana, com necessidades de capital a rondar os 40 mil milhões de euros. Agora, espera que o esforço para construção dessa almofada financeira que encheu os cofres portugueses seja "tão grande" que possa servir para fazer face aos piores cenários.

 

"Quem não arrisca não petisca"

O governo renova o sentido de compromisso como acordado a nível europeu. Mas isso pode ser pouco. Passos Coelho aivsa que o governo deve fazer tudo, não apenas promessas vãs, começando por alterar as políticas. Nessa matéria, os alertas do FMI dão novo fôlego ao líder social-democrata. Se nada for feito, "é uma questão de tempo até que desequilíbrios maiores possam ocorrer", e isso, avisa Passos, pode custar caro ao bolso dos portugueses.

"Isso não se faz telefonando a uns investidores ou reunindo uns exportadores", ironizou, insistindo que o país poderá ser penalizado durante muito tempo se perder o "elo de confiança" com os mercados e que Portugal se está "perigosamente" a aproximar-se de "um período em que essa confiança pode ficar em causa e em que o trabalho para a reconstruir pode ser demorado".

 

"Gosto de ser pão, pão, queijo, queijo"

Foram cinco expressões populares que marcaram um discurso onde o próprio se define com um estilo "pão, pão, queijo, queijo". Refletem o que o antigo primeiro-ministro pensa da situação do país e da Europa, num almoço com empresários em Lisboa, organizado pelo International Club.

Um estilo de oposição que critica quem profecia a desgraça, profeciando também algo menos bom de forma clara: "o resultado só pode ser mau, não vai ser bom. Não é preciso muita sapiência".

 

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