O PS interpela o Governo na sexta-feira, no parlamento, sobre pobreza e desigualdades, considerando que há no país um drástico agravamento dos indicadores sociais e um fenómeno quase generalizado de «mobilidade social descendente».

«O agravamento da situação social vai muito para além dos casos de pobreza extrema e atinge segmentos muito alargados da sociedade. Há uma mobilidade social descendente quase generalizada, que é algo que provavelmente nunca antes acontecera com esta dimensão na sociedade e na economia portuguesa», sustentou o ex-ministro socialista Vieira da Silva.

Justificando o motivo de o PS ter agendado uma interpelação parlamentar ao Governo sobre pobreza e desigualdades, Vieira da Silva defendeu em primeiro lugar que o debate sobre este tema «é fundamental na sociedade portuguesa na sua dimensão democrática, política e até cívica».

«Consideramos que o debate está longe de se considerar esgotado e consideramos que o Governo tem feito uma tentativa de desvalorização do tema. É preciso reconhecer o problema, conhecê-lo aprofundadamente e é preciso também que algumas políticas mudem para podermos estancar a tendência para um agravamento da situação social no país», advogou o deputado socialista.

Interrogado sobre as medidas de urgência preconizadas pelos socialistas para responder à atual situação social, Vieira da Silva referiu-se «a preocupações» por parte do seu partido, que se traduzem «em iniciativas ou áreas prioritárias de intervenção».

«Estamos perante realidades que não se mudam de um momento para o outro, mas quanto mais tarde se atuar mais grave serão os problemas. Ao longo do debate, o PS não deixará de identificar as áreas em que a vontade política está em falta e onde é preciso que essa vontade política seja reforçada», disse o deputado do PS, referindo-se então, especificamente, a casos de pobreza extrema, fenómeno «que toca entre três a quatro por cento da população».

Vieira da Silva rejeitou depois a tese do Governo de que os setores mais vulneráveis da sociedade portuguesa foram mais poupados perante as medidas de austeridade tomadas ao longo dos últimos três anos.

«Acontece que, infelizmente para os portugueses, a realidade não se conforma com esse discurso. A realidade a é diferente - a realidade dos números ou a realidades que todos nós empiricamente conhecemos. Num extrato muito alargado da sociedade portuguesa, não há uma família que não seja atingida por fenómenos muito duros de pobreza, de exclusão, de afastamento do mercado de trabalho ou de emigração», sustentou o deputado socialista.

Para Vieira da Silva, estes fenómenos por si atrás referidos «penetraram profundamente na sociedade portuguesa».

«O fenómeno do desemprego e da desvalorização do salário foi de tal forma poderoso que trouxe todos os indicadores de desigualdade e de pobreza para níveis que já eram desconhecidos há muitos anos», acrescentou.