O ex-primeiro-ministro José Sócrates não pretende candidatar-se às próximas presidenciais.

«Não sinto nenhuma inclinação para voltar a depender do favor popular. Embora seja mais um homem da ação que da vida contemplativa que tive nestes dois anos, que não é o que sei fazer», afirmou o ex-líder socialista, em entrevista publicada este sábado pelo Expresso, quando questionado sobre as próximas presidenciais.

Sócrates voltou a justificar o regresso ao comentário político por estar a ser «atacado sem defesa», depois de se ter fixado em Paris para estudar quando perdeu as legislativas em 2011: «Nem sabia que existiam vidas tão boas.»

Na entrevista, o atual comentador político recordou o período que antecedeu o pedido de assistência financeira internacional, insistindo que o Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC) IV podia tê-la evitado, «mas os filhos da mãe da direita em Portugal deram cabo de uma solução apenas para ganharem uma eleição».

Sócrates descreveu um encontro, no início de 2011 em Berlim, com a chanceler alemã, juntamente com o «estupor» do ministro das Finanças, Wolgang Shauble, que «todos os dias punha notícias nos jornais» contra Portugal, e citou Angela Merkel a dizer que era «a única na Alemanha» que achava que Lisboa não precisava de ajuda.

«[Durão] Barroso esteve sempre do nosso lado» e «defendeu Portugal, foi um patriota», lembrou o socialista, referindo que muito do que se construiu no PEC IV foi com o presidente da Comissão Europeia. «Regresso de Berlim e acho que temos isto feito», acrescentou.

O ex-chefe de Governo mencionou um encontro, após a reunião em Berlim com o então líder do PSD, Pedro Passos Coelho, «para lhe dar conta da situação» e dizer que urgia salvar Portugal.

Ao ser confrontado na entrevista com a questão de que Passos Coelho sempre disse que não sabia de nada, Sócrates respondeu que ele «mentiu e deixou que outras pessoas mentissem».

O Presidente da República também foi visado na entrevista ao Expresso. «Fizeram-me uma malandrice. Pensada a partir de Belém. Foi o momento escolhido para dar cabo do Governo, criar uma crise política e levar-nos a assinar o memorando. Resisti o mais que pude, mas a realidade impôs-se», contou.

Sócrates referiu-se também à nacionalização do BPN, dizendo que inicialmente «não sabia o que aquilo era» mas depois considerou que o «risco sistémico era real» e «[o ministro das Finanças] Teixeira dos Santos estava apavorado com esse risco e uma corrida aos bancos».

«Arrependermo-nos é errarmos duas vezes. Posso ser ingenuo, mas nunca me ocorreu que aquilo fosse o que foi», declarou Sócrates, reiterando que o seu erro foi, em 2009, «ter aceite um Governo minoritário». «Custou-me os olhos da cara pedir ajuda. A alternativa era o default. Assinei. O que é que podia fazer? Já ninguém lá fora dava nada por nós. Foi o que a direita quis, obrigar a pedir a ajuda e o PS a assinar o memorando», afirmou. «Ficou como a minha pedra no sapato.»

Sócrates comentou a sua disputa com Manuel Alegre no PS, considerando que é «um engano» pensar que o histórico socialista é mais de esquerda do que ele, e disse que é o «chefe democrático que a direita sempre quis ter», embora as suas características que «a direita acha que são de direita não são».

O ex-líder socialista lança o seu livro «A Confiança no Mundo», na quarta-feira em Lisboa, que resulta da sua dissertação em 2013 no Institut d'Études de Paris para o grau de Mestre em Teoria Política.