O ex-primeiro-ministro José Sócrates afirmou esta quinta-feira que tem «a maior expetativa» face ao posicionamento do PS nas próximas eleições europeias, num debate em que se afirmou «descoroçoado» com a presidência de François Hollande em França.

«Tenho a maior expectativa, porque entre PS e PSD há hoje uma diferença na perspetiva quer quanto ao que aconteceu na Europa, quer quanto ao que deve acontecer no futuro. Por isso, tenho a maior expectativa sobre o posicionamento político do PS», declarou José Sócrates numa conferência do ISCTE.

Perante um auditório cheio, o ex-líder socialista defendeu a tese de que acabou o tradicional consenso europeu entre o centro direita e o centro esquerda, que a esquerda terá de dizer «não» à liderança «exclusiva» da Alemanha na União Europeia, acusou o atual Governo de ser «capataz» de Berlim, mas manifestou-se «descoroçoado» com a linha política seguida pelo chefe de Estado francês, François Hollande, como reporta a Lusa.

Numa conferência subordinada ao tema «Papel do Estado na sociedade contemporânea», moderada pelo ex-deputado socialista Miguel Vale de Almeida, José Sócrates fez uma intervenção inicial com cerca de uma hora e respondeu depois, ao longo de hora e meia, a perguntas da plateia, sobretudo de estudantes.

De acordo com José Sócrates, até aqui, as eleições europeias decorriam com base no debate político sobre questões nacionais, porque havia consenso entre o centro direita e o centro esquerda em relação à linha da União Europeia.

«Parto otimista para esse momento. Não tenho uma visão descoroçoada [do PS] como alguns», declarou o ex-secretário-geral do PS, numa alusão às eleições de maio próximo e já depois de se ter referido de forma crítica ao executivo socialista francês.

«Quanto a [François] Hollande, sinto-me descoroçoado e partilho da desolação, porque sempre esperei que viesse dali o polo que pudesse equilibrar as coisas na Europa, mas não foi assim», disse, após ter feito duras críticas à liderança não inclusiva da Alemanha que, na sua opinião, colocou em causa dois princípios fundamentais da União Europeia: a igualdade e a coesão entre Estados-membros.

Em relação às próximas eleições, Sócrates defendeu que «o dever da esquerda europeia é ser muito ambiciosa» e que «é preciso dizer claramente não à Alemanha».

«Não é com rodriguinhos, porque o que está a acontecer favorece alguns países e prejudica outros. Isto não tem por trás qualquer teoria da justiça. Tenho a certeza que o PS vai fazer isto, já que o Governo atual comporta-se como uma espécie de capataz que diz aqui o que os alemães dizem na Alemanha», considerou.

No período de perguntas, o ex-primeiro-ministro foi confrontado com a ideia de um aluno (aparentemente comunista) sobre uma alegada cooperação entre socialistas e neoliberalismo.

Sócrates discordou em absoluto, sustentando que o «PS está nos antípodas do neoliberalismo» e recusando a tese que «mete tudo no mesmo saco».

«Para além do estalinismo tudo é neoliberalismo? Já é um erro confundir-se neoliberalismo com liberalismo clássico», respondeu.

Mas, neste ponto de pura ciência política, Sócrates acabou por fazer uma espécie de autocrítica: «O centro esquerdo e o centro direita confiaram em excesso na desregulação dos mercados».

Na conferência, o ex-secretário-geral do PS confessou-se «cada vez mais republicano» e assumiu outro erro no seu passado.

«A primeira vez que li John Rawls [Uma teoria da Justiça] achei-o insuportável. Agora acho-o um génio», disse.

O ex-primeiro-ministro justificou também, indiretamente, o motivo porque recorre tantas vezes a explicações sobre o que aconteceu entre 2008 e 2011 para analisar a atual vida política.

"Grande parte da política é uma luta pela verdade histórica", advogou o ex-chefe do Governo português.