O secretário-geral do PS acusou este sábado o primeiro-ministro de persistir em enganar os portugueses, preparando-se agora para transformar os cortes provisórios em definitivos.

«Temos um primeiro-ministro que persiste numa coisa: em enganar os portugueses», afirmou o líder socialista, António José Seguro, no encerramento da conferência «Novo Desenvolvimento», organizada pelo partido num hotel em Lisboa.

Recordando que precisamente há uma semana avisou os portugueses para o facto de o Governo ter «uma agenda escondida» e de que «vinham aí mais cortes na ordem dos dois mil milhões de euros», António José Seguro fez alusão ao «corrupio de asneiras» que aconteceu desde então, numa referência indireta à informação transmitida por fonte do ministério das Finanças de que o executivo ponderava criar um mecanismo permanente para substituir a Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES) nas pensões.

«Entre membros do Governo e dirigentes do PSD todos a tentarem dizer que não vinham mais cortes ou se vinham mais cortes era para substituir os atuais e até houve um membro do Governo que em segredo chamou os jornalistas para dizer 'nós vamos fazer mais cortes, mas por favor não digam quem vos disse que vai acontecer e que vai haver mais cortes no nosso país'», ironizou.

No final, continuou, a partir de Moçambique, o primeiro-ministro teve de «pedir contenção aos membros do seu Governo».

Classificando a situação como «grave», o líder socialista disse, contudo, ser ainda mais grave que o primeiro-ministro persista em «enganar os portugueses».

António José Seguro recuou depois três anos, para lembrar que no dia 1 de abril faz precisamente três anos que Pedro Passos Coelho disse que tinha feito as contas e que não seria necessário cortar nos salários ou nos subsídios de férias ou de Natal.

Contudo, prossguiu o líder socialista, assim que chegou ao Governo o líder do PSD fez precisamente o contrário e «enganou os portugueses».

«Quando disse que ia fazer esses cortes, o que disse? 'Atenção não são definitivos, são só provisórios, só vai durar o tempo do programa de ajustamento'. O que se está a verificar? Que ele de novo se prepara para enganar os portugueses e que, infelizmente, ele se prepara para transformar cortes provisórios em cortes definitivos», sublinhou, acusando Passos Coelho de criar «incerteza junto dos portugueses» e de ter apenas «uma perspetiva contabilista, no pior sentido do termo» da sociedade, em vez de uma perspetiva reformista.

«A agenda neoliberal da senhora Merkel»

Seguro voltou hoje a defender a mutualização da dívida, acusando o Governo de recusar combater ao lado do PS por esta proposta, preferindo ter Merkel como aliada.

«Temos um Governo que nem tem ideias, nem tem estratégia, porque não tem vontade política, nem vontade para ir à procura de aliados. O Governo português só tem um aliado: a agenda neoliberal da senhora Merkel», disse o secretário-geral socialista.

Recuperando a questão da mutualização da dívida, Seguro recusou a ideia de que sejam os europeus a pagar a dívida portuguesa. Contudo, sublinhou, é importante ter em conta que 15 dos 18 países que fazem parte da união económica e monetária têm uma dívida pública superior a 60%, o limite definido pelos tratados.

«Essa é uma razão suficiente para dar uma resposta europeia ao problema das dívidas públicas, não apenas por causa desse rácio, mas também porque é necessário dar um sinal aos mercados e combater a especulação», defendeu, preconizando que o Banco Central Europeu financie diretamente os Estados, emprestando dinheiro ao mecanismo europeu de estabilidade.

«Compreendo que os países que não têm este problema sejam menos sensíveis, o que eu não aceito é que o primeiro-ministro do nosso país não seja sensível e se tenha recusado a combater ao lado do PS para que essa proposta possa ser aceite no seio da União Europeia», acrescentou.