O ex-ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros Luís Amado defende que o próximo governo terá de ser de maioria, que dê uma «garantia de estabilidade» para resolver os problemas do país.

Em entrevista, este sábado, à Antena 1 e ao Diário Económico, o atual presidente do Conselho Administração do Banif considera que «o país aprendeu com os erros».

«Tivemos durante muitos anos governos minoritários, que tiveram dificuldade em imprimir a ação governativa, uma linha de estabilidade e de coerência programática e política que pudessem resolver alguns problemas estruturais do país», sublinha. Por isso, o próximo executivo poderá ser «outra coligação, mas tem que haver um governo de maioria».

«Creio que ninguém duvida hoje que não haverá condições, nem nenhum Presidente da República dará posse a um governo minoritário no atual contexto. Portanto, terá de haver um entendimento», sustenta.

Para Luís Amado, um governo democrático tem que dar «uma garantia de estabilidade, sem a qual é muito difícil resolver os problemas do país» e, na atual situação, deve «garantir um custo de financiamento que não onere ainda mais as famílias e as empresas por culpa da falta de compromisso político entre os partidos».

Na entrevista, Luís Amado defende um programa cautelar após a saída da troika.

Contudo, acredita que «o cenário da saída limpa, sem apoio do programa cautelar, será o mais desejado pelos diferentes governos europeus, sobretudo aqueles que têm de gerir qualquer garantia ou apoio cautelar com o envolvimento dos seus parlamentos».

«É natural que Portugal esteja a ser orientado por um caminho que não terá duas saídas, mas apenas uma saída», a saída limpa, sublinha.

Para o antigo MNE, era «aconselhável» uma «rede de proteção» nesta fase, devido à «incerteza» e à «volatilidade financeira».

«A volatilidade do sistema financeiro pode-nos confrontar com movimentos de capitais erráticos dentro de meses que podem pôr em causa a tendência em baixa sustentada que as taxas de juro têm conhecido» e conduzir o país para «uma situação de grande vulnerabilidade face à sua dependência de financiamento externo», justificou.

A partir de maio, Portugal entra «num processo em que todas as cautelas são necessárias para garantir que o risco político não desencadeia uma pressão no aumento das taxas de juro para o futuro».

«Se o risco político se agravar, então esse processo será fatal para o país», adverte.

Amado considera que a pressão «é muito grande» sobre o sistema político e sobre o PS.

«A ideia de o Partido Socialista defender uma saída limpa era, do ponto de vista tático, uma boa ideia, mas sempre a critiquei. porque acho que a pressão sobre o sistema político português é muitíssimo maior a partir do momento em que o risco político está diretamente ligado ao comportamento dos principais atores e responsáveis políticos».

Segundo o ex-ministro do Governo socialista chefiado por José Sócrates, a Comissão Europeia foi «muito subalternizada no processo de reabilitação da crise do euro e da crise europeia» e deveria ter tido «um papel muito mais ativo» e «muito mais liderante dos interesses em confronto na representação, sobretudo, dos países mais fracos e em situação mais frágil».

«Estivemos no limite da resiliência social e política à crise provocada por um conjunto de medidas», diz.

Para o presidente do Banif, «a Comissão falhou sobretudo na ênfase que era necessário dar, com o apoio aos programas de ajustamento» e com uma «forte intervenção corretora do exercício de ajustamento que era imposto aos países».

«Era preciso eventualmente ter afrontado a Alemanha», sublinha.