A eurodeputada e candidata presidencial do BE alertou esta segunda-feira que a União Europeia (UE) pode não resistir enquanto projeto se permitir que a crise humanitária se transforme numa crise identitária, nomeadamente adotando medidas que “acicatam o medo”.

“Propostas como o registo de todos os passageiros ou a suspensão do espaço Schengen acicatam o medo e a chantagem, mas não trazem nada de novo e provocam um conflito do ponto de vista identitário. A uma crise identitária a UE não sobrevive”, notou Marisa Matias, em declarações aos jornalistas, depois de participar na conferência “União Europeia e os refugiados”, no Porto.

A eurodeputada manifestou-se também “muito preocupada” com a subida da extrema-direita nas eleições francesas e com o crescimento “do discurso racista e xenófobo por toda a Europa”.

“Não sei se a UE conseguirá sobreviver enquanto projeto se transformar a crise humanitária numa crise identitária. Isso pode pôr em causa o projeto da UE tal como o conhecemos até agora”, afirmou a bloquista, durante a conferência organizada pelo Núcleo de Relações Internacionais da Universidade do Porto.

Para a bloquista, a UE “continua a não assumir as suas responsabilidades”, fazendo crer “que não tem meios disponíveis” para resolver a questão dos refugiados, ao mesmo tempo que os usa para justificar o “reforço de lógicas securitárias, do nacionalismo ou da criminalização dos fluxos migratórios”.

“Não é por falta de recursos que o problema não se resolve, é por falta de vontade política”, vincou.

De acordo com Marisa Matias, “o acolhimento de refugiados tem custos bastante inferiores aos que estão a ser gastos com cercas e vedações”.

Criticando a “emergência de egoísmos nacionais”, Marisa Matias observou que a UE não vai conseguir lidar com o problema dos refugiados enquanto estes “ficarem como que adjudicados aos países onde chegam” sem que haja uma “resposta solidária”.

“A UE enfrenta um desafio, mas esse desafio, os refugiados, muitas vezes vistos como ameaça, não chegam a 1% da população total da UE", afirmou a eurodeputada.

De acordo com Marisa Matias, “durante muitos anos, a UE e as instituições europeias não procuraram uma resposta adequada à questão dos refugiados”, nomeadamente devido à “conivência, suportada em acordos comerciais e outros, com os regimes ditatoriais do Norte de África e do Médio Oriente”.

A candidata presidencial criticou ainda a “hipocrisia” da França, que, “nos últimos anos, tem disputado os primeiros lugares no topo de vendas de armamento à Arábia Saudita quando se sabe que esta é um dos principais financiadores do Estado Islâmico”.

“A guerra e o bombardeamento no local não são resposta para nada. É preciso secar as fontes do estado islâmico e não se honra mortos fazendo mais mortos”, sublinhou.