O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros socialista Luís Amado considerou hoje que o Guião da Reforma do Estado apresentado pelo Governo «reflete com seriedade» alguns dos problemas do país e merece a atenção de todos os atores políticos.

«O Guião da Reforma do Estado é uma base de trabalho que o Governo propõe. Tinha-se comprometido a isso, provavelmente deveria tê-lo feito há um ano atrás, até se o tivesse feito há dois anos a situação estaria provavelmente melhor do que está», referiu em declarações à Lusa e Antena 1 à margem da sessão inaugural do VI Congresso Internacional da África Lusófona - I Encontro da África Global, que decorre na universidade Lusófona, em Lisboa, até quinta-feira.

«Mas é uma base de trabalho, acho que nenhum ator se deve refugiar na necessidade de encarar os problemas do país e do meu ponto de vista o guião reflete alguns desses problemas com seriedade», considerou o ex-chefe da diplomacia e convidado para a conferência inaugural do congresso.

Numa referência à atual situação política interna, Luís Amado insistiu que o país vai necessitar «mais cedo ou mais tarde» de um «amplo consenso» que ajude a resolver os problemas do país.

«Se o tivesse feito há quatro ou cinco anos atrás não estávamos como estamos. Se o tivéssemos feito há um ano atrás estávamos melhor do que estamos hoje. Mas provavelmente só o vamos fazer quando não tivermos mesmo outra alternativa», sublinhou, mas evitando referir-se à posição do Partido Socialista (PS), em que milita, e que recusa discutir as propostas do Executivo sobre a reforma do Estado.

«Relativamente às grandes questões de regime, seja de economia, do sistema financeiro, das grandes áreas sociais, sou favorável a um amplo consenso para que as políticas não estejam a mudar frequentemente, que se gere perante o exterior estabilidade, convergência na ação política, de forma a garantir que o país possa ser credível e percebido pelos nossos credores como um país fiável. E isso pressupõe um entendimento mais amplo das forças democráticas», defendeu.

Apesar de sublinhar que a sua posição não constituiu «necessariamente» uma crítica às posições da liderança do PS, Luís Amado considerou que uma nova abordagem pode depender com «condições que têm de ser criadas e que são responsabilidade de todos os atores, dos partidos, das principais figuras institucionais da sociedade portuguesa, que têm aliás feito alguma pressão nesse sentido».

E concretizou: «Tanto quanto se percebe pelos estudos de opinião a grande maioria dos portugueses percebe hoje que o desentendimento entre os principais partidos relativamente às grandes questões de fundo que afetam o país os prejudica a todos, e nessa perspetiva há um caminho que está a ser feito e penso que vamos continuar a fazer essa caminho e haverá um momento em que as circunstâncias nos impelirão a um amplo consenso que possa ajudar a resolver os problemas do país».

Luís Amado defendeu também «mais serenidade» nas relações com os países de língua portuguesa e considerou que os seus problemas internos devem ser «relativizados». «Temos de ter mais serenidade nas relações com Angola, Moçambique, com os países de língua portuguesa em geral. São problemas internos que os países têm, nós também temos os nossos próprios problemas internos, temos de relativizar mais os problemas desses países e que hoje são independentes», referiu em declarações à Lusa e Antena 1 à margem da sessão inaugural do VI Congresso Internacional da África Lusófona - I Encontro da África Global, que decorre na universidade Lusófona até quinta-feira.

Na perspetiva do antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, os países africanos lusófonos estão a construir «a sua própria realidade económica, social, política», e numa referência específica a Angola, frisou que «saiu há muito pouco tempo de uma vasta guerra que deixou profundas marcas na sociedade angolana».