O ex-Presidente da República Mário Soares considera que Paulo Portas «ultrapassou» a fronteira que tinha definido relativamente aos pensionistas e não tirou consequências e que este tem sido «humilhado» e relegado para terceira figura do Governo.

«O doutor Paulo Portas lá sabe as linhas com que se cose, mas eu não gostei muito que ele dissesse que havia uma linha, que essa linha não se podia ultrapassar e depois ultrapassou-a e ficou tudo na mesma, há ali qualquer coisa que não está bem, porque quando lhe abrem os olhos, e particularmente o primeiro-ministro, quando lhe abre os olhos, ele faz o que ele quer», afirmou Soares.

O antigo chefe de Estado e ex-primeiro-ministro falava aos jornalistas à margem de uma conferência sobre o Estado, na Fundação Mário Soares, em Lisboa. «Eu gosto de pensar pela minha cabeça e acho que o Paulo Portas, que é uma pessoa inteligente, devia fazer o que queria, que parece que era ir-se embora, mas não o deixam», acrescentou.

O fundador do PS considerou depois que o presidente do CDS «tem sido humilhado» e apontou o governo do Bloco Central (1983-85), que liderou com Carlos Mota Pinto, como exemplo de uma boa coligação: «Eu tive vários governos, mas um, por exemplo, com o professor Mota Pinto, que era uma figura importantíssima, nunca tive o mais pequeno dissabor com ele, antes pelo contrário, era uma figura excecional, nunca tive o mais pequeno problema com ele, nem ele comigo, foi perfeito e durámos dois anos, ele era tratado como se fosse eu, era tratado como o número dois».

Mário Soares apontou o que diz ser a configuração da atual coligação de governo: «Olhe doutor Paulo Portas, agora você vai para terceiro lugar porque o ministro das Finanças é mais importante que você. Isto não é muito sadio e é um pouco humilhante para o próprio Paulo Portas».

Questionado pelos jornalistas sobre se Paulo Portas faltou à palavra dada sobre a contribuição de sustentabilidade, Soares concordou: «Sim, naturalmente faltou, ele disse que não queria uma coisa, fez um discurso a dizer umas coisas e depois veio dizer que afinal era outra coisa».