O socialista António Costa, presidente da Câmara de Lisboa, defendeu quinta-feira à noite, em Coimbra, que é preciso um «grande consenso político e social» para enfrentar os problemas de fundo do país.

«Resolvida esta etapa [programa de ajustamento financeiro], o que é sério começa agora, que é resolver o problema de voltarmos a gerar crescimento, emprego e riqueza no contexto em que estamos, no mundo globalizado, no quadro de uma moeda única e confrontados com o desafio colocado ao nosso modelo social, do ponto de vista demográfico e da fragilização dos direitos», sublinhou o antigo ministro.

António Costa, que falava na 42.ª conferência promovida pela Fundação Inês de Castro, sobre o tema «A troika, e depois», numa unidade hoteleira de Coimbra, salientou que para enfrentar aqueles desafios é necessário «um grande consenso político e social, que incida no triângulo produtividade, política de rendimentos e fiscalidade».

O autarca defendeu um «acordo político de fundo que permita uma estratégia de desenvolvimento regional, uma política sustentada de qualificação da sociedade portuguesa, olhar para a qualidade das nossas instituições e ter um acordo duradouro e estável sobre os três pilares fundamentais do nosso sistema social, que é a Segurança Social, a escola pública e o Serviço Nacional de Saúde».

Apesar de se mostrar satisfeito pelo programa de ajustamento financeiro a Portugal terminar a 17 de maio, o antigo ministro dos governos socialistas de António Guterres e de José Sócrates frisou que o país chega ao fim da intervenção «com uma dívida e encargos anuais com o serviço da dívida superiores ao que tínhamos no início».

Segundo António Costa, «a totalidade do produto de todas as privatizações feitas ao longo deste período, que são cerca de oito mil milhões de euros, que passou pela venda das participações na EDP, na REN, na ANA, nos CTT e em várias empresas, é praticamente o mesmo que este ano vamos ter de pagar de juros da dívida pública portuguesa».

«No final deste programa de ajustamento nós vendemos grande parte dos nossos ativos e tudo aquilo que obtivemos de receita, sendo uma dimensão muito importante tem um valor equivalente ao valor dos juros da dívida pública que vamos pagar ao longo deste ano, que são sensivelmente 7,3 mil milhões de euros», acrescentou.

Para o presidente da Câmara de Lisboa, Portugal tem de partir para o pós troika, «percebendo bem qual é o contexto em que estamos, pois não nos podemos voltar a enganar no diagnóstico e temos de perceber bem que, infelizmente, nem tudo se explica pelo mau Governo que está de turno, mas explica-se por um contexto global que nos transcende».

O antigo governante socialista disse ainda que a «necessidade de fazer reformas é imprescindível no futuro do país», mas advertiu que os políticos só as vão executar se conseguirem que as pessoas «sintam confiança no processo de mudança e não sintam que cada mudança é um risco para o seu futuro ou mesmo presente».

«Um dos grandes desafios que temos pela frente, e que vai ser necessário para as próximas décadas, é quebrar o medo e restabelecer a confiança para que as reformas e as mudanças sejam possíveis», considerou António Costa.