A eurodeputada Ana Gomes disse esta quarta-feira à agência Lusa estar «chocada» com a entrada da Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), considerando que «é um regime ditatorial, criminoso e ladrão» do seu próprio povo.

«Já era esperado, mas choca-me na mesma. Acho que é uma desvalorização, um atentado à própria imagem ou potencial da CPLP, porque no fundo está a branquear um regime ditatorial e um regime que é criminoso, que tem processos nos Estados Unidos e em França por criminalidade económica e financeira», disse Ana Gomes à Lusa.

A Guiné Equatorial, que pediu adesão ao bloco lusófono em 2010, entrou esta quarta-feira na CPLP como membro de pleno direito durante a décima conferência de chefes de Estado e de Governo da organização, que decorreu pela primeira vez na Ásia, no caso em Díli, Timor-Leste.

Em declarações à Lusa, a eurodeputada socialista salientou que a questão do português é muito importante, mas não a mais relevante.

«Importante é sobretudo o branqueamento político que se está a tentar fazer através desta adesão em relação a um regime odioso (...). No caso da Guiné Equatorial estamos perante um regime ditatorial, ladrão do seu próprio povo e não há razões nenhumas para ser branqueado politicamente, que é o que está a tentar fazer a CPLP», frisou.

Ana Gomes lembrou também que existem outros países fundadores da CPLP que, além da língua portuguesa, têm pelo menos a base constitucional e o objetivo de viver de acordo com as regras democráticas.

No entender da eurodeputada, toda esta situação «faz muito mal à CPLP e à credibilidade dos países que aceitaram a adesão», como é o caso de Portugal.

«A mim pessoalmente causa-me tristeza que isto tenha acontecido em Timor-Leste, com líderes que eu conheço bem e que tiveram um papel importante na libertação do seu povo relativamente a uma outra ditadura e que agora têm memória curta, mas eu não tenho», salientou.

A eurodeputada sublinhou que o «mundo não para», sendo agora necessário «passar a ter mais escrutínio» em relação ao que se passa na Guiné Equatorial, no sentido de ajudar o povo «contra um regime ladrão e opressor».

«Há muitas ações que são possíveis de empreender ao nível financeiro. Há uns meses escrevi ao Banco de Portugal e à CMVM [Comissão do Mercado de Valores Mobiliários] sobre investimentos no país. E disseram-me que não tinham sido solicitados a pronunciar-se sobre possíveis investimentos da Guiné Equatorial, como por exemplo no Banif», contou.

A responsável disse também que escreveu às autoridades europeias e à própria agência europeia bancária de supervisão sobre o mesmo assunto.

«Naturalmente, acionaremos todos os meios para que seja exercida vigilância, para que este regime não utilize a CPLP para intensificar os esquemas de branqueamento de capital, onde infelizmente há portugueses implicados, designadamente os promotores da entrada da Guiné Equatorial na CPLP como o dr. Martins da Cruz e Luís Amado», disse, referindo-se a dois ex-chefes da diplomacia portuguesa.

Ana Gomes disse ainda esperar que não aconteça aos empresários portugueses o que aconteceu ao empresário Robert Rinaldi, que está preso na Guiné Equatorial «porque ousou questionar os esquemas de branqueamento de capitais».

Integram agora a CPLP Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.