Quatro anos depois de ter pegado na embarcação naufragada, Passos Coelho podia estar algo sorridente na segunda tomada de posse como primeiro-ministro por ter cumprido o resgate, em representação dos portugueses que estiveram ao leme, a segurar as pontas, afundados na austeridade. A verdade é que esteve praticamente sempre impassível. Tal como o Presidente da República que lhe deu posse. Tal como praticamente toda a plateia de 500 convidados. Talvez porque este pode ser o Governo mais curto da História da Democracia. Não pelo "incumprimento" que entrou no vocabulário desde a era da troika, mas pela política. Pura política. 

À chegada ao Palácio da Ajuda, políticos a par e passo, poucos sorrisos, apressados, parcas palavras. Alguns novos ministros ainda prometiam aos jornalistas falar depois, aqueles que agora entregaram a pasta não quiseram. Só o ex-ministro da Economia, Pires de Lima, despediu-se perante as câmaras, no fim.

Entre as viaturas topo de gama, com motorista, sobressaía um: o do ministro do Ambiente, Moreira da Silva, que se mantém no cargo. A fazer jus à sua pasta, vinha num carro ecológico e bege, a fugir à norma dos automóveis pretos e de vidros escuros. Mas houve também quem chegasse de táxi (poucos), como foi o caso do novo secretário de Estado Adjunto do Vice-Primeiro-Ministro, Eduardo Nogueira Pinto.

Paulo Portas chegou sozinho, já a cúpula começava a reunir-se na sala principal. Os jornalistas estavam na sala nas traseiras, de onde não puderam sair desde as 11:30 (a cerimónia era às 12:00) até o Presidente da República abandonar o local.

O controlo foi, de resto, muito apertado. Cerca de 60 seguranças para os 500 convidados. Estava também logo à vista nas redondezas, com dezenas de polícias.

 “Isto estava muito bem guardado” e “o pessoal do BES” era uma das ameaças, confessou à TVI24 um oficial. A operação foi tranquila. O perímetro de segurança, claro, ajudou. Num raio de pelo menos um quilómetro, várias saídas na zona da Ajuda foram bloqueadas. Nem os autocarros circulavam.

Isolados no palácio, Cavaco Silva e Passos Coelho eram aqueles que estavam, literalmente, mais sós. O primeiro sentado ao centro da sala, o segundo junto à parede, à sua esquerda (ironia?) e meio metro afastado dos seus ministros. Maria Luís Albuquerque e Paulo Portas (inicialmente tidos como rivais) trocaram várias impressões e sorrisos. Quatro anos de convívio depois, os arrufos irrevogáveis pelo meio parecem ultrapassados.

Não deu tempo para perceber eventuais animosidades entre o Presidente da República e o novo Presidente da Assembleia da República, o socialista Ferro Rodrigues. Chegaram juntos, embora rapidamente cada um tenha ido para o seu lugar.

Para todos, um Governo só e até daqui a 15 dias


Tomar posse: ser investido ou investir-se num direito, num cargo ou dignidade. É o significado que consta no dicionário e remete para um ato de formalidade. Foi isso mesmo.

É do protocolo citar o nome dos ministros e fazer referência ao cargo. Depois, o compromisso de honra. Um minuto bastou para a chamada e para o juramento de cada um.

Quase lembrou os tempos de escola, à espera do exame ou de saber a nota do teste. Mas aqui com outras assinaturas. Eram rubricas, na verdade. Mais rápidas ainda de fazer. 55 assinaturas: 16 ministros, 36 secretários de Estado, uma de Passos, duas de Cavaco.
 
Ambos sempre com um ar circunspecto, poucos movimentos de cabeça, quase sorriso nenhum. Uma cerimónia institucional. Do início ao fim. Entre o negro dos fatos, lá sobressaía o casaco colorido às flores da ministra da Agricultura Assunção Cristas. A seguir, o casaco vermelho de Maria Luís Albuquerque. Passos Coelho escolheu a mesma cor para a gravata. Cavaco Silva preferiu o azul.
 
A sensação era, porém, de um céu cinzento e com nuvens a pairar sobre o Palácio. A condizer com a paisagem lá fora. O chefe de Estado precisou de beber água três vezes durante o seu discurso. Foi mais moderado nos termos em que se dirigiu à esquerda, mas avisou que “ninguém confia num país ingovernável”.
 
O primeiro-ministro, por sua vez, começou como há quatros anos, a falar dos “mares nunca antes navegados” e das “tormentas” que herdou do anterior Governo socialista. Para dizer que, consigo, o país “não falhou”. Choveram avisos ao PS e à esquerda: “desvios precipitados poderiam deitar tudo a perder”, “ninguém deve arriscar o bem-estar dos portugueses”.
 
Terminou carregando no tom da palavra “todos”, por várias vezes repetida. “Todos devem assumir as suas responsabilidades”. “Todos – na política, na sociedade civil e na economia – são chamados a cumprir o seu dever”. Todos. Não um só Governo. Mas este foi um Governo só que saiu do Palácio da Ajuda.
 
Em representação de outras forças políticas, só João Galamba do PS esteve presente. E acabou por protagonizar com o secretário de Estado do Turismo Adolfo Mesquita Nunes um momento captado pela RTP, que correu as redes sociais, e que ilustra a consciência da muito provável perenidade deste Governo: “Daqui a 15 dias és tu que subirás esta escadaria?”, questionou o deputado do CDS.
 
Seja como for, o Governo empossado não perdeu tempo. À semelhança de 2011, o Conselho de Ministros logo se reuniu, pelas 15:45. O primeiro da legislatura. Se o Governo vier mesmo a cair dia 10 de novembro - atendendo às já anunciadas moções de rejeição por parte de toda a esquerda - só haverá mais um antes. O de hoje terá servido para enturmar os novos ministros e dar conta das linhas gerais do programa do Executivo.

Na Presidência do Conselhos de Ministros, há essas novas caras para interiorizar. A TVI24 percebeu a cábula de uma funcionária enrolada na mão, enquanto acompanhava os jornalistas no elevador: fotografias com os nomes dos governantes. “O reconhecimento visual é muito importante! O Google ajuda, mas há quem pinte o cabelo, sobretudo as senhoras”. 
 
Os estreantes estavam com ar surpreendido na pose in(formal) para as objetivas dos fotógrafos, já com a cúpula sentada em redor da mesa onde se decidem as medidas para o país. Entre os 17 membros, o ambiente pareceu mais descontraído do que na manhã. Hora e meia depois, trabalhos encerrados. Rápidos, a lembrar os "despachos" da gíria política. Logo se verá se eficazes no Parlamento.