A eurodeputada socialista Ana Gomes considerou, esta sexta-feira, que a presença de europeus entre os grupos terroristas «não acontece por acaso» e advertiu para o perigo de a Europa entrar numa «deriva securitária e xenófoba».

Em declarações à agência Lusa, a eurodeputada alertou que os europeus não podem «embarcar numa deriva securitária e xenófoba contra os muçulmanos, que instigue mais ódio», porque «eles também são vítimas».

«Não podemos fazer o jogo dos terroristas, que querem que ponhamos em causa os nossos valores, as nossas liberdades e a nossa democracia», afirmou a eurodeputada à Lusa a partir do Iraque, lamentando não poder participar na manifestação de domingo marcada para Paris.

A socialista recordou o trabalho que desenvolveu no Parlamento Europeu na área do terrorismo e defendeu que dever ser entendida a presença de europeus no exército do Estado Islâmico.

«Isso não acontece por acaso, tem muito a ver com o que se passa na Europa, com a falta, inclusivamente, de meios para programas de inteligência humana para os serviços de informação e de segurança, para programas de desradicalização para os jovens e programas de inserção social para os jovens», argumentou à Lusa.

A eurodeputada voltou a condenar os ataques terroristas em França e rejeitou «interpretações perversas e abusivas» do que escreveu há dois dias na rede social Twitter.

«Procuraram dar uma versão de que desculpo os atos terroristas», considerou a responsável, ao justificar a mensagem escrita na Internet: «Charlie Hebdo. Horror! O resultado das políticas anti-europeias de austeridade: Desemprego, xenofobia, injustiça, extremismo, terrorismo».

Apesar das limitações na divulgação de informações devido a questões de segurança, Ana Gomes revelou haver planos terroristas para a Península Ibérica.

«Mostraram-me um mapa do chamado califado do Estado Islâmico, que tem desígnios, claramente, para a Europa e, nomeadamente, para a Península Ibérica, que eles chamam Al Andaluz», relatou.

A França registou, desde quarta-feira, quatro incidentes violentos, que começaram com um atentado à sede do jornal Charlie Hebdo, em Paris, provocando 12 mortos (10 jornalistas e cartoonistas e dois polícias) e 11 feridos.

Os dois suspeitos, os irmãos Said Kouachi e Cherif Kouachi, de 32 e 34 anos, foram mortos esta sexta-feira na sequência do ataque de forças de elite francesas à gráfica, em Dammartin-en-Goële, nos arredores da cidade, onde se barricaram.

Na quinta-feira, foi morta uma agente da polícia municipal, a sul de Paris, e fontes policiais estabeleceram já «uma conexão» entre os dois jihadistas suspeitos do atentado ao Charlie Hebdo e o presumível assassino.

Também esta sexta-feira, ao fim da manhã, pelo menos quatro pessoas foram mortas numa loja «kosher» (judaica) do leste de Paris, numa tomada de reféns, incluindo o autor do sequestro, que foi igualmente morto durante a operação policial.

Fontes policiais citadas pelos media franceses dizem que este homem é provavelmente o mesmo que matou a polícia municipal.