A coordenadora do Bloco de Esquerda (BE), Catarina Martins, manifestou esta sexta-feira perplexidade por Portugal gastar “mais em Defesa, em percentagem do PIB”, do que gastam “países mais ricos” da Europa e não ter “dinheiro para guardar um paiol”.

Como é que um país que gasta mais em Defesa, em percentagem do PIB [Produto Interno Bruto], do que a Alemanha, a Dinamarca, a Holanda ou a Bélgica” ou “do que a NATO exige que se gaste, ao contrário de muitos outros que não o fazem, não é capaz de ter dinheiro para guardar um paiol?”, questionou.

Esta é “uma perplexidade enorme que o BE tem”, assumiu Catarina Martins, em Évora, ao discursar na sessão de apresentação dos candidatos do partido à câmara deste concelho alentejano, nas autárquicas de 1 de outubro.

Referindo-se ao furto de armamento de guerra ocorrido na unidade militar de Tancos, no concelho de Vila Nova da Barquinha, distrito de Santarém, pertencente ao Exército, a líder do BE argumentou que “há, seguramente, uma responsabilidade política na forma” como, em Portugal, se olha “para as Forças armadas, para a Defesa” e como se distribui o Orçamento.

Como é que alguém neste país, algum cidadão, alguma cidadã deste país, compreende que a Defesa leve, do produto da riqueza que o país tem, em percentagem, mais do que” é gasto “nos países mais ricos da Europa e, depois, não seja capaz de consertar um sistema de videovigilância ou uma vedação que estão avariados há anos?”, questionou também.

Estas perguntas, alertou Catarina Martins, “têm de ter resposta” e “são importantes”.

Não basta nós dizermos que está mal. Nós precisamos de fazer as coisas bem. E não basta dizermos que a direita fez tudo mal, porque isso nós já sabemos. Há é a responsabilidade de se fazer muito melhor”, defendeu.

Respostas claras

Segundo a coordenadora do BE, estas “têm sido semanas agitadas” no país, e “por más razões”, devido a “falhanços do Estado em funções essenciais”.

E, em relação a Tancos, não existe “ninguém que não fique extraordinariamente perplexo e preocupado com o que aconteceu e com a facilidade com que, aparentemente, pôde desaparecer tanto material militar”.

Aludindo à comissão parlamentar de Defesa, onde ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, foi ouvido, depois de, na quinta-feira, o Chefe do Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte, ter prestado esclarecimentos sobre o sucedido em Tancos, Catarina Martins disse que “não é aceitável que o país não perceba exatamente o que aconteceu”.

Estamos a ouvir do parlamento explicações, tanto da hierarquia do Exército, como do ministro da Defesa e, na realidade, quanto mais explicações ouvimos, mais perguntas temos na nossa cabeça”, referiu.

Em matéria de “questões militares, é sempre muito difícil fazer perguntas e, principalmente, obter respostas claras”, mas, “desta vez, temos mesmo de ter respostas claras”, argumentou.

Segundo a líder do BE, “as instituições militares têm de responder, claramente, pelo falhanço operacional que permitiu um roubo desta dimensão, mas há também responsabilidades políticas”.

Não é fácil, nos momentos em que as coisas correm menos bem, assumir o que está mal, mas, se pusermos a cabeça na areia, seja sobre a floresta, seja sobre a proteção civil ou seja sobre as Forças Armadas, nada vai correr melhor no dia seguinte”, alertou, afirmando que o país “exige políticas diferentes que façam com que nada disto” volte a acontecer.

"Hipocrisia da Direita"

A coordenadora do Bloco de Esquerda assumiu ainda que o partido não participa no “concurso” sobre “o pedido de demissão mais rápido” e acusou a direita de “hipocrisia” em relação aos incêndios ocorridos na região centro.

Há, neste momento, uma hipocrisia da direita que, não querendo mudar nada do que diz respeito à floresta” ou “à Proteção Civil, pede responsabilidades políticas, mas não quer tirar consequências políticas do que tem sido feito e do que tem de mudar no país”, criticou.

O BE, frisou, “quer respostas a todas as perguntas que ainda não tiveram resposta e leva muito a sério a afirmação de que as respostas determinam também a responsabilidade política”.

E, “nestas matérias, há, seguramente, responsabilidade política”, afirmou, salientando que é preciso que “se saiba tudo” e que “se retirem as consequências necessárias de tudo o que se passou, as políticas e as técnicas”.

O que ninguém conta com o BE, nesta matéria, como em nenhuma outra, é para o concurso sobre qual é o pedido de demissão mais rápido, enquanto se esquece a investigação necessária das causas do que aconteceu e a alteração necessária das políticas”, alertou.

Segundo a líder do Bloco, “face à dimensão da tragédia”, é necessário que o país mude, “seja na Proteção Civil, seja na prevenção ou seja na reforma florestal”.