Por: Filipe Caetano | 16- 5- 2011 22: 34
José Sócrates enfrentou Jerónimo de Sousa na SIC, naquele que foi o último debate do secretário-geral do PCP antes das
eleições de 5 de Junho. Jerónimo esteve melhor do que noutras ocasiões, mas deixou a sensação de não ter gasto todos os cartuxos,
que deverá reservar para a campanha. O candidato do Partido Socialista manteve-se interventivo, interrompendo muitas vezes
e lançando farpas ao PSD.
No final, ficou também o embaraço do ex-primeiro-ministro quando questionado sobre a não
existência de uma versão em português do memorando de entendimento com a troika. Sócrates pensava que o Ministério das Finanças
tinha disponibilizado o documento. Antes, já tinha dito que «quem vencer tem de formar Governo».
Os dois JS (as siglas
dos nomes são iguais, José Sócrates e Jerónimo Sousa) surgiram também idênticos na aparência visual: fato escuro, camisa branca
e gravata em tons de azul. Mas as semelhanças terão terminado aí. Jerónimo passou ao ataque, esclarecendo que a sugestão de
coligação pós-eleitoral é pouco provável, pois «os três partidos que assinaram o memorando têm mais em comum».
Sócrates,
que tinha começado o debate, tentou vincar diferenças para o PSD, considerando que se trata de «um erro de análise» equipará-los.
Jerónimo não seguiu a deixa e preferiu criticar as políticas do Governo nos últimos anos, vincando a pergunta: «Para onde
foi o dinheiro?».
As diferenças eram evidentes e o candidato socialista tentou o número que já tinha feito com Paulo
Portas e Francisco Louça, criticando o programa do PCP. «Ser o mesmo de 2009 é uma falta de respeito pelos eleitores, porque
aconteceu muita coisa no último ano e meio», frisou, criticando a vontade dos comunistas em renegociar a dívida, sair do euro
e nacionalizar várias empresas.
Jerónimo não respondeu a tudo, mas lá foi dizendo que «a Grécia já está a renegociar
condições», sugerindo que mais cedo ou mais tarde isso vai acontecer a Portugal. E, a propósito das nacionalizações foi buscar
um exemplo: «Apanheio-o. Se foi tão lesto em nacionalizar o BPN, agora tem a disposição de privatizar o BPN para os prejuízos
ficarem com os portugueses».
Irritações
Sócrates tentava controlar a mensagem, Jerónimo acalmava
- «Não se zangue, não se zangue». As interrupções eram constantes. Introduz-se o argumento do salário mínimo, das reformas
mais baixas e da aposta nas exportações.
«Estava previsto o aumento do salário mínimo», diz Sócrates. «É dar com
uma mão e tirar com a outra», responde Jerónimo, que lembra que os idosos vão pagar mais taxas moderadoras e transportes.
A
moderadora, Clara de Sousa, decide intervir e lançar incerteza. Sócrates é questionado sobre a razão de não tradução do memorando
de entendimento com a troika. O candidato do PS julga que «existe uma versão no site do Ministério das Finanças». Mas a verdade
é que não está. Há uma versão em inglês e o trabalho da tradução para português
foi feito pelo blog Aventar.
Seguindo em frente, Sócrates defendeu que «todas as medidas constantes no memorando
são as do PEC 4». Jerónimo ouve e responde: «Isto é pura demagogia». E ri-se. Fala-se de empresas, o candidato do PS dá o
exemplo da «Ikea e da fábrica de baterias da Nissan». O comunista reage e ataca o capital, o «privilégio» às empresas. Sócrates
suspira e diz «ai meu deus».
E o afastamento é cada vez maior. Jerónimo defende fixação de preços nos combustíveis
para defender os consumidores. Sócrates discorda e diz que «só se deve dar murros na mesa quando estes têm efeitos práticos».
E não quer seguir as ideias de Zapatero, que reduziu o preço dos combustíveis e a velocidade máxima nas auto-estradas.
Uma
última questão, sobre a possibilidade do Presidente da República empossar um Governo entre PSD e CDS, mesmo que o PS fique
em primeiro lugar. Sócrates parece querer fugir à questão, mas acaba por dizer: «Não vejo isso como uma solução. Quem ganha
é que vai governar».
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