«É uma questão que é tudo menos trivial», mas não é «por enquanto», um caso de política, mas de Justiça. Foi assim que o primeiro-ministro reagiu à detenção do ex-chefe de Governo, Repetiu a expressão por duas vezes, sem nunca referir o nome de José Sócrates. Passos Coelho diz que «seria muito mau» pronunciar-se sobre «um caso em particular», que é do foro judicial. 

«Eu não sou comentador, sou primeiro-ministro», começou por dizer, aos jornalistas, na Guarda, à margem da sessão de encerramento da Academia do Poder Local, promovida pelos Autarcas Social-Democratas (ASD) e pelo Instituto Francisco Sá Carneiro, onde já tinha discursado, na qualidade de líder do PSD, dizendo que «os políticos não são todos iguais».

Passos Coelho diz que o país deve «aguardar que a justiça faça o seu caminho»: 

«A Justiça não está fora da política» (...) mas «cabe ao Ministério Público explicar e informar» sobre o caso. «Não cabe ao chefe do Governo, Aliás, seria muito mau, a propósito de um caso particular», os poderes públicos e o Governo tecerem comentários. «Não devemos estar a discutir as decisões da Justiça quando elas estão ainda a decorrer».

 
Não quis ligar a detenção de Sócrates à reforma que o seu Governo está a concretizar na Justiça: «Não julgo (...) que o quer que tenha acontecido e envolvido o ex-PM seja consequência dessa reforma».

As suas palavras dirigiram-se aos cidadãos, em geral: «É muito importante que os portugueses se apercebam que, em Portugal, as instituições funcionam e funcionam com respeito pela separação de poderes» e que «não compete ao governo pronunciar-se sobre matérias que são do foro da Justiça», voltou a frisar.

Passos Coelho diz que enfrentou situação das mais severas

O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, afirmou este domingo que na história recente de Portugal «só um outro» chefe do governo enfrentou uma situação tão severa, mas defendeu que o País já pode olhar para o futuro com outra esperança.

«Fui primeiro-ministro durante três anos e meio e talvez não tenha havido mais do que um outro que, desde 1974, tenha enfrentado uma situação tão severa. Significa que se passou por provações muito grandes, mas hoje podemos olhar com outra esperança», afirmou, sem nomear o governante.

Passos Coelho salientou que «os resultados económicos já melhoraram e o emprego também, sendo possível em 2015 o alívio de alguma da austeridade, devolvendo parte do rendimento às pessoas, pelo que a perspetiva é bem diferente».

«Temos os que querem tudo de novo, mas temos de saber até onde, e a que ritmo, queremos ir: se mais depressa, podendo dar um passo em falso, ou ir devagarinho e restaurar a esperança. É uma escolha que temos de fazer», disse.

Passos Coelho falava na inauguração do novo edifício do Centro Social e Paroquial de Avanca, que comporta duas valências: uma unidade de Cuidados Continuados e um novo lar.

A construção representou um investimento de cerca de quatro milhões de euros, um terço dos quais financiados pelo Estado.

Quanto à comparticipação do Estado na obra, o primeiro-ministro disse que «é uma obrigação do Estado devolver aos cidadãos uma parte dos seus impostos para que funções sociais possam ser desenvolvidas».

O primeiro-ministro realçou que, apesar dos tempos recentes que obrigaram a uma grande contenção, o governo conseguiu manter o equilíbrio e preservar as funções sociais do Estado.

«Conseguimos, com uma ligação próxima com o setor solidário, garantir que apesar dessas dificuldades o essencial dos recursos estivesse destinado aos que precisam e alargar o apoio às instituições que estão no terreno, mais próximas das pessoas», afirmou.

Salientou que tem sido alargado o número de instituições que beneficiam da transferência de recursos do Estado, «conseguindo que cada vez mais pessoas possam aceder a respostas sociais».

Noutro momento da sua intervenção, Passos Coelho disse ser necessário criar condições para um futuro diferente, com uma sociedade menos fechada, empresas que olham mais para o mercado global, financiamento mais criterioso para criar emprego sustentável, «que não seja a fingir em que o Estado tem de ir buscar aos impostos para o sustentar».

Aflorou ainda o problema demográfico, para o qual defendeu a necessidade de haver uma procura de soluções transversal aos diferentes partidos e à sociedade.