O antigo ministro Miguel Relvas garantiu hoje que, em "nenhuma circunstância", desenvolveu esforços de que "natureza fosse" para que Jorge Silva Carvalho viesse a assumir quaisquer funções no Serviço de Informações da República Portuguesa.

Na quinta-feira, o “ex-espião” revelou que esteve muito perto de ser nomeado pelo governo de Passos Coelho como diretor do SIRP, mas que o “caso das secretas” impossibilitou essa nomeação. 

Relvas reagiu esta sexta-feira dizendo que, pelo contrário, sempre manifestou a opinião de que, tendo pedido a demissão do cargo de diretor do SIED nas circunstâncias em que o fez, Jorge Silva Carvalho estava "automaticamente a auto-excluir-se de vir a exercer no futuro idênticas funções".

"É necessário recordar ainda que as funções que exerci enquanto membro do XIX Governo Constitucional não incluíam qualquer tipo de intervenção na área dos serviços de informações, cujas competências estavam em diferente tutela política", adianta o antigo ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares, do executivo liderado por Pedro Passos Coelho, citado pela Lusa.

Na mesma nota de esclarecimento, Relvas diz ainda querer "deixar claro que nem enquanto secretário-geral do PSD, nem como ministro", tomou "qualquer diligência" nesse sentido.

"Nem nunca me foi solicitado por Pedro Passos Coelho para que Jorge Silva Carvalho viesse a assumir quaisquer funções nos Serviços de Informações da República Portuguesa"


O que disse o ex-espião em julgamento


O ex-diretor do SIED, arguido no chamado processo das secretas, disse em julgamento que, em maio de 2011, quando já trabalhava para a empresa privada Ongoing, teve um encontro no hotel Ritz, em Lisboa, com Miguel Relvas (PSD), que lhe perguntou se estava interessado em voltar ao serviço de informações.

Segundo Silva Carvalho, depois de ter recusado o convite de Miguel Relvas, em junho do mesmo ano, quando o Governo PSD tomou posse, foi novamente contactado, através de um assessor do gabinete do então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, para ocupar o cargo de secretário-geral do SIRP.

O arguido explicou que, nesse almoço, voltou a recusar o convite, invocando os mesmos motivos pelos quais recusara o convite de Relvas, designadamente a vontade de ter mais tempo para os filhos.

Relatou que, posteriormente, houve outro almoço e que, perante a insistência dos interlocutores, aceitou, na condição de que fosse o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho a formalizar o convite.

Lembrou que houve ainda “uns contactos”, mas que, depois, surgiram as primeiras notícias relacionadas com "o caso dos cidadãos russos” e dos “metais preciosos”, que integram o chamado “processo das secretas”, e tudo ficou sem efeito.

À saída do tribunal, aos jornalistas, Silva Carvalho garantiu que não chegou a almoçar ou a reunir-se com Passos Coelho para discutir a sua eventual nomeação como secretário-geral do SIRP e disse “estar convencido” de que, se não fosse o caso das secretas ter surgido nos jornais, teria sido efetivamente nomeado para o lugar.

Silva Carvalho e o arguido João Luís (funcionário das secretas) estão acusados por acesso ilegítimo agravado, em concurso com um crime de acesso indevido a dados pessoais e por abuso de poder.

O ex-diretor do SIED responde ainda por corrupção passiva para ato ilícito, relacionado com a alegada entrega de informações à Ongoing em troca da sua contratação para aquela empresa privada. O arguido nega tais factos.

Nuno Vasconcellos, presidente da Ongoing, está acusado de corrupção ativa para ato ilícito.