O candidato à liderança do PSD Pedro Santana Lopes afirmou este sábado que aprendeu com as lições do passado, e pediu desculpas por episódios que lhe são apontados durante o seu governo entre 2004 e 2005.

No entanto, o candidato considerou que nunca cometeu erros em matéria de política interna e política externa que justifiquem qualquer pedido de desculpas.

Aqueles que dizem que não tirei lições do que aconteceu em 2004 estão enganados, aos que acham que seria conveniente pedir desculpas por algumas situações, peço desculpas”, afirmou, na intervenção de encerramento da Convenção Nacional da sua candidatura, que decorreu este sábado em Lisboa.

Em seguida, Santana Lopes elencou uma série de episódios que ocorreram durante o tempo em que foi primeiro-ministro.

Peço desculpa por uma careta de um ministro na cerimónia de tomada de posse [Paulo Portas], peço desculpa por uma dirigente não ter ficado numa secretaria de Estado e ficado noutra [Teresa Caeiro], peço desculpa não sei bem porquê, porque ninguém teve a hombridade de me dizer”, afirmou.

Santana disse ainda que até pode pedir desculpa por se ter sentido indisposto na cerimónia de tomada de posse ou por ter feito um discurso sobre um bebé na incubadora, um dos últimos que fez antes da dissolução do parlamento pelo então Presidente da República Jorge Sampaio

“Por nunca ter cometido um erro em decisões de política interna e externa, isso já não peço desculpa porque isso era o meu dever, dar o melhor por Portugal”, afirmou.

Num discurso de pouco mais de 30 minutos, que encerrou a Convenção que se prolongou por cinco horas, Santana fez também duros ataques ao Governo socialista, apoiado à esquerda, e desafiou desde já o primeiro-ministro, António Costa, para um debate a seguir ao Congresso do PSD, que decorre entre 16 e 18 de fevereiro em Lisboa.

Dizendo estar “cada vez mais convencido” da vitória sobre o seu adversário, Rui Rio, nas diretas de 13 de janeiro, Santana Lopes dedicou boa parte do discurso aos críticos internos.

“Não é igual escolhermos para líder do partido alguém que sabe estar presente quando o partido precisa ou que nunca está a fazer campanha com adversários políticos ou quem, em nome da dignidade pessoal, não teve rebuço nenhum em pôr-se ao lado de quem combate o partido. Não é a mesma coisa”, defendeu.

Santana acusou ainda, implicitamente, Rui Rio de ter “uma posição equívoca” sobre o Governo do PS e, salientando que o país “precisa muito” de acordos de regime em áreas como a Segurança Social ou as obras públicas, defendeu que estes não poderão ser feitos na reta final da legislatura.

“Alguém acredita que a um ano e meio de eleições fosse agora a altura para irmos celebrar um acordo de boa fé da parte do Governo com a oposição?”, questionou.

O candidato defendeu que “agora é o tempo de construir uma alternativa” ao executivo de esquerda, projeto para o qual disse querer mobilizar “socialistas descontentes, liberais independentes e até democratas-cristãos que não têm partido”.

Santana Lopes deixou ainda elogios ao ainda presidente do partido, Pedro Passos Coelho, considerando que “não pôde fazer mais” enquanto primeiro-ministro porque teve de salvar o país da bancarrota.

Se Pedro Passos Coelho tivesse sido candidato, eu não estaria aqui, ao contrário do meu adversário”, assegurou.

 

"Estado não pode fornecer todos os serviços de modo tendencialmente gratuito"

Antes, Santana Lopes defendeu que o Estado não pode fornecer todos os serviços a todos de modo tendencialmente gratuito, devendo diferenciar os cidadãos em função dos seus rendimentos.

Na sua primeira intervenção na Convenção Nacional da sua candidatura, Santana Lopes respondeu a perguntas que lhe foram enviadas por militantes e que foram selecionadas e projetadas num ecrã gigante.

Questionado por um militante do Estoril como poderão os pensionistas com menos recursos pagar os lares, Santana Lopes disse preferir falar em Estado solidário do que em Estado social.

A minha ideia é complementar à que tem sido seguida pelo Estado social, eu prefiro falar em Estado solidário. O Estado solidário liga-se mais com o conceito de cada um dever ser tratado em função dos seus rendimentos, o Estado social não pode fornecer todos os serviços de modo tendencialmente gratuito”, afirmou, apontando como exemplo a área da saúde, onde para quem tem mais rendimentos existe a oferta de seguros privados.

No caso concreto dos lares, o candidato defendeu que uma parte do esforço contributivo para a Segurança Social deve “ficar consignado para esse tempo de dependência física mais tarde”.

A primeira intervenção de Santana Lopes na Convenção começou cerca de uma hora depois do previsto e três horas depois de a iniciativa ter arrancado e que o candidato disse ter acompanhado pelas redes sociais.

Além desta questão, o candidato respondeu, sentado sozinho no palco central da Convenção, a mais cinco perguntas relacionadas com as comunidades, as desigualdades sociais, os cidadãos com deficiência e as regiões autónomas.

Sobre esta última questão, Santana defendeu ser o tempo de fazer “um balanço” sobre o relacionamento da República com Madeira e Açores e iniciar um “novo ciclo”, considerando que a crise financeira deixou alguns “dossiês pendentes por resolver” com as Regiões Autónomas.

Às comunidades, o antigo primeiro-ministro prometeu atenção redobrada a “quem está longe” e defendeu que o voto eletrónico deve ser introduzido “logo que seja possível em termos de segurança e respeito pela pureza da liberdade individual”.

O candidato apontou, no campo da inclusão, que deve ser assegurado que as regras para a construção de edifícios acessíveis são cumpridas e propôs o aumento dos estímulos fiscais para as empresas que deem trabalho e oportunidades aos cidadãos com limitações físicas.

A Convenção Nacional da candidatura de Pedro Santana Lopes arrancou já depois das 16:30, com a intervenção de abertura a cargo do mandatário nacional e presidente da Câmara de Viseu.

Almeida Henriques recolheu o primeiro aplauso da sala, no auditório principal do pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, ao elogiar “a excelente performance” de Pedro Santana Lopes, no debate de quinta-feira, na RTP.

"Ficou bem provado como é que um percurso político pode formar a pessoa certa, ficou bem provado quem está preparado para governar o país e quem é que faz trapalhadas”, afirmou.

Seguiram-se vários painéis temáticos, com temas como o crescimento económico, a coesão do território, a importância da inovação, a celeridade da justiça e políticas sociais.

No painel sobre crescimento económico, onde foi também orador Braga de Macedo, o presidente executivo da Endesa Portugal Nuno Ribeiro da Silva foi muito crítico da atual solução governativa, que acusou de “anacronismo ideológico”

“Podíamos estar a crescer muito mais se houvesse bom senso e não houvesse um discurso agressivo com setor privado”, defendeu alertou, criticando o PS por ter rompido o compromisso assumido com o PSD para a redução do IRC.

O PSD escolherá o seu próximo presidente no dia 13 de janeiro em eleições diretas, que serão disputadas entre Pedro Santana Lopes e Rui Rio.