O debate entre os candidatos presidenciais Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa, que neste sábado se realizou no “Jornal das 8", na TVI, ficou marcado pela cordialidade, mas também pelo intervalo de 23 dias que separa o apoio que um e outro deram aos acordos à esquerda que levaram António Costa a São Bento. Os dois garantem que a corrida presidencial é uma partida com um único adversário: Marcelo Rebelo de Sousa. Mas se houver uma segunda volta presidencial, as sondagens indicam que um deles poderá lá estar. 

Debate na íntegra: veja aqui 

É tempo de contagem de espingardas e alguns "incómodos" entre ambos, sobretudo devido ao apoio aos acordos à esquerda que permitiram Costa chegar ao Governo. Nóvoa disse que daria posse a qualquer Governo a 27 de outubro, a “dra. Maria de Belém foi repetindo hesitações sobre isto, semana após semana, dia após dia (…) Quando tudo estava resolvido, no dia 18 de novembro, quando tudo estava assente, veio declarar que daria posse a um governo de maioria parlamentar. Mas isto de acertar no Totobola à segunda-feira é muito fácil”, ironizou Sampaio da Nóvoa.

Belém ri-se com o “exagero ou má análise” do ex-reitor e evoca os socialistas que também apoiaram Costa e sempre estiveram com a sua candidatura, como António Almeida Santos, Manuel Alegre e Vera Jardim. 

No dia em que o presidente socialista Carlos César manifestou o seu apoio ao independente Nóvoa e que o próprio secretário-geral do PS e primeiro-ministro, António Costa, deu carta branca aos militantes para votarem num ou noutro, este último debate presidencial assentou nas diferenças entre as duas candidaturas.

Maria de Belém garante: “Não fiquei surpreendida, nem desiludida com esta declaração” de Carlos César. Já Nóvoa, capitaliza: “É um apoio que me honra muito”, disse no debate, tendo referido que o viu “com muita naturalidade”, até porque a este soma o apoio de muitos outros socialistas, como os históricos Mário Soares e Jorge Sampaio – ambos ex-presidentes socialistas. 

“Sampaio da Nóvoa está sempre a dizer - e repete-o frequentemente - que o facto de surgir e sendo independente, que é para evitar que sejam sempre os mesmos a aparecer nestas candidaturas do espaço político, mas o que é um facto é que apesar de falar na indispensabilidade da renovação passa a vida a evocar o apoio de três ex-Presidentes da Republica que são, dois deles de partidos políticos – foram, aliás, ambos do Partido Socialista; um que entregou o cartão, outro que conservou o cartão – e, portanto, não me parece que essas pessoas sejam consideradas como menos capazes”.


Durante o debate, moderado pela jornalista Judite Sousa, mediu-se o espaço de cada candidatura. Maria de Belém tentou colar Nóvoa a “um frentismo de extrema-esquerda que, aliás, hoje está substituído de certa forma e de certa forma amputado, na medida em que há duas candidaturas autónomas e fortes quer do PCP quer do BE”, disse Roseira sobre a mudança das condições de apoio a Nóvoa desde que surgiu há oito meses como candidato. E lembrou ao ex-reitor que “essas candidaturas vieram reduzir o espaço de apoio a Sampaio da Nóvoa” que, neste momento, tem como partidos que o apoiam diretamente “o MRPP e o Livre”.

Ao estreitamento do apoio a Sampaio da Nóvoa que Belém destacou no debate, o independente respondeu com a sua agenda de sábado. “Hoje estive a almoçar num almoço promovido pelo general Ramalho Eanes”, sublinha Nóvoa, dizendo que as críticas que lhe fazem são “maneiras de tentar desqualificar a presença de outros atores e de outros protagonistas no debate político”.

Sampaio da Nóvoa reconhece, contudo, que “não” hostilizará politicamente a candidatura de Maria de Belém. “O meu adversário principal nesta campanha é o professor Marcelo Rebelo de Sousa”. E porquê? “Porque foi ele que apoiou, há três meses, ao voto em Passos Coelho, em políticas que eu considero erradas e foi em nome de um combate a essas políticas, de um combate contra as políticas de austeridade, que eu fiz esta candidatura. Eu provavelmente nunca teria sido candidato se não sentisse que o meu país precisava de mim nesta altura”. 


Também Maria de Belém Roseira não considera que Sampaio da Nóvoa representa um adversário para Belém. “Tenho dito sempre que Marcelo Rebelo de Sousa é o meu principal adversário, evidentemente”.
 

A experiência de Belém


O que os diferencia, segundo Maria de Belém, é a experiência que ela tem e ele não em cargos públicos e políticos. “Para além do espectro partidário, em que nos situamos em campos diferentes, em campos não coincidentes, há realmente uma diferença: eu assumo, com todo orgulho, a minha condição de militante no PS. Não aceito, de forma nenhuma, que se considere que o facto de ser independente nos dá algo de acrescido e de qualificante para o exercício de uma função desta natureza", considera.

Maria de Belém quer reforçar que a sua experiência faz a diferença entre ambos:  "Ao contrário, até considero que o facto de ter desempenhado muitas funções, quer na área pública, quer na área política, me deu uma maturidade e o conhecimento institucional do funcionamento das instituições que me permite enfrentar com mais tranquilidade aquilo que são as tensões e turbulências dos tempos que vivemos”.


Ao argumento da experiência, Sampaio da Nóvoa riposta que a candidatura de Maria de Belém -   “não vale a pena tapar o sol com a peneira" - surgiu numa situação de incómodo, numa situação de divisões internas dentro do PS, que mostrou sempre um grande incómodo com este tempo novo que se criou”. Para cima da mesa veio uma entrevista do mandatário de Maria de Belém contra os acordos à esquerda e o facto de ter sido apoiado António José Seguro, afastado da secretaria-geral do PS por António Costa.