O dirigente socialista António Costa fez esta segunda-feira, perante 280 sindicalistas, um duro ataque à economia financeira especulativa, à política do atual Governo e considerou urgente a dignificação e a valorização do trabalho em Portugal.

Tendo ao seu lado o líder da corrente de sindicalistas socialistas da CGTP-IN, Carlos Trindade, o presidente da Câmara de Lisboa defendeu como prioridades nacionais a recuperação do emprego, e a dignificação e valorização do trabalho, tendo como tese central que os custos laborais apenas representam em média 15 por cento dos custos de produção.

Em contraponto, António Costa atacou a economia especulativa, referindo-se então de passagem à crise no Banco Espírito Santo (BES), mas enquadrando-a num fenómeno à escala global.

«A origem da crise não está no mundo do trabalho», sustentou António Costa, dizendo que, pelo contrário, encontra-se na «invenção neoliberal» da valorização do setor financeiro em alternativa ao setor produtivo da economia.

«Com o processo de enganar o empobrecimento salarial por via do crédito fácil, de desvalorizar a economia produtiva, o poder do mundo mudou e um castelo de cartas começou a ruir em 2008. Quando agora alguém deita as mãos à cabeça e diz 'ai o que está a acontecer no BES', pois é, é o que está a acontecer em todos os 'espíritos santos' do mundo, que é o que acontecerá sempre quando a economia não assentar no esfoço, no trabalho e na produção, mas, simplesmente, na ilusão da produção financeira», advogou, recebendo uma prolongada salva de palmas.

O dirigente socialista fez também uma espécie de autocrítica sobre um excesso de otimismo dos socialistas nas últimas décadas, antes da crise financeira de 2008.

«Houve alturas em que nós, socialistas, pensámos que a luta pela dignidade do trabalho tinha chegado ao seu termo, que as grandes desigualdades, as injustiças e o trabalho sem regras era algo do passado, mas enganámo-nos. A luta pelo trabalho digno é uma luta de hoje e será uma luta de sempre», sustentou, recebendo grandes palmas.

A partir deste ponto, Costa atacou também o Governo por ter apostado numa via de «empobrecimento» em termos salariais, assente numa lógica de aposta nas exportações e esmagamento da procura interna.

«A maior limitação ao investimento é a falta de expetativas na procura. É urgente e necessário mudar de política», contrapôs.

Pelas estimativas apresentadas pelo presidente da Câmara, se o salário mínimo fosse atualizado em janeiro do próximo ano, mesmo que fosse aumentado para 522 euros com as atualizações da inflação, apenas representaria 0,25 por cento do conjunto da massa salarial.

Ainda no sentido de procurar provar o caráter errado da política do atual executivo, o candidato socialista nas primárias de 28 de setembro culpou o Governo por ter colocado em causa a sustentabilidade das finanças públicas.

Segundo António Costa, o Governo, ao não atacar o problema central do desemprego, gerou uma descapitalização do sistema de segurança social na ordem dos oito mil milhões de euros, o que agravou a dificuldade de cumprimento das metas de consolidação orçamental.

Na sua intervenção, o presidente da Câmara de Lisboa apontou entre um conjunto de soluções alternativas, a aplicação urgente de fundos comunitários, a revalorização da floresta, o aproveitamento de áreas agrícolas não cultivadas e a reabilitação urbana.

Um ponto que lhe serviu para defender depois a importância para o país da saúde financeira de pequenas e médias empresas de construção civil, que, por sua vez, estão intimamente ligadas ao setor industrial da produção de materiais de construção.

«Não há crescimento sustentável com endividamento, mas também não há crescimento sustentável com empobrecimento», acrescentou.