Rui Rio e Pedro Santana Lopes. Da mesma geração, do mesmo partido, presidiram às duas maiores câmaras do país (Santana em Lisboa, Rio no Porto). É um daqueles casos em que parece que é muito mais o que os une do aquilo que os separa. As diferenças, de resto, existem mais ao nível da forma do que no conteúdo: de um lado o calculista e contido Rio, do outro o animal político, o killer Santana. Um deles será o próximo líder do PSD e, esta quarta-feira, há um novo duelo, na TVI e TVI24, que pode ser decisivo.

Pese embora o primeiro (e até agora único) debate entre os dois candidatos tenha sido marcado por muitos ataques pessoais e poucas propostas concretas, a maioria dos comentadores políticos considera que o desempenho “agressivo” de Santana Lopes derrotou a postura “amorfa” de Rio. 

Quando faltam apenas três dias para as eleições que vão ditar o sucessor de Pedro Passos Coelho este segundo frente a frente pode dar força ou, pelo contrário, comprometer as aspirações dos dois candidatos.

Santana tem uma postura mediática que lhe parece conferir alguma vantagem nos debates, mas como irá lidar com o embaraço em torno do polémico investimento da Santa Casa no Montepio?

E Rio, por sua vez, que precisa de ganhar o duelo para equilibrar os pratos da balança e provar que pode fazer frente ao primeiro-ministro (outro killer para os comentadores), de que forma irá responder à colagem a António Costa? 

Estas são algumas das cartas que podem ditar a vitória. Reunimos quatro temas quentes, que podem ser decisivos neste debate:

1.  O mandato de Joana Marques Vidal

É um dos temas quentes do momento e deverá ser paragem obrigatória neste debate. No último frente a frente, nenhum candidato esclareceu qual a sua posição em relação a este assunto. Mas Rio não poupou nas palavras para deixar críticas ao Ministério Público.

O balanço que eu faço não é positivo. Não vejo no Ministério Publico a eficácia e o recato que acho que devia ter. (…) Os julgamentos não devem ser feitos em praça pública. O Ministério Público em muitos casos deixou passar cá para fora muitas informações, o que não deve acontecer num Estado de Direito democrático”, frisou Rio.

Santana deixou elogios à "coragem" do Ministério Público. “Se há algo que não se pode dizer da Justiça portuguesa é que tiveram medo de enfrentar poderosos", sublinhou. Mas ainda assim, deixou críticas - “estou de acordo com a inadmissibilidade de julgamentos na praça pública” – e não esclareceu a sua posição quanto à recondução ou não da procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal.

Ora, este novo debate realiza-se depois de as declarações da ministra da Justiça terem causado polémica. Francisca Van Dunem disse que Joana Marques Vidal vai deixar o cargo de procuradora-geral da República em outubro porque "a Constituição prevê um mandato longo e um mandato único”. Palavras que suscitaram um rol de críticas do PSD e do CDS, que defendem a recondução da procuradora. 

 

2. A entrada da Santa Casa no Montepio

O tema foi um constante embaraço para Santana Lopes nesta campanha. O investimento da Santa Casa (da qual Santana Lopes foi provedor e, aliás, só saiu para se candidatar à liderança do PSD) no Montepio deu asas a uma acesa troca de farpas entre os dois candidatos.

A polémica tem-se intensificado em torno de quem teve a ideia original deste negócio. Neste fim de semana, o ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Vieira da Silva, disse, em entrevista à Antena 1, que a ideia de a Santa Casa ter um papel no setor financeiro foi de Santana Lopes, embora a proposta do Montepio como hipótese para esse investimento tenha sido do Governo.

Rio não perdeu tempo e não só deixou críticas ao negócio, como exigiu ao adversário explicações “tintim por tintim” sobre este assunto.

"Não faço ataques pessoais, mas peço explicações ‘tintim por tintim’ daquilo que aconteceu. (...) E se eu sou crítico à forma como tivemos de usar dinheiro público dos nossos impostos para tapar erros cometidos na banca, menos posso aceitar que aquela parte do dinheiro público que é destinada ao combate à pobreza, a fazer misericórdia, esteja disponível para ir meter no sistema bancário”, sublinhou. 

 

3 – O bloco central e a relação com o PS

No debate anterior, Santana Lopes excluiu qualquer coligação com o PS antes ou depois das eleições. Já Rui Rio afirmou que não pode dizer "jamais" a um bloco central, isto é, a uma coligação entre PSD e PS, embora tenha sublinhado que só reserve esse cenário para "circunstâncias extraordinárias".

Pode haver situações extraordinárias em que, em nome do interesse nacional, não se possa estar amarrado a dizer jamais", frisou Rio.

Estas palavras não caíram bem no seio do partido e, desde aí, Rio foi várias vezes questionado sobre estas declarações. Numa entrevista à Renascença, o antigo autarca abriu mesmo a porta ao apoio a um governo minoritário do PS.

Ora, abrir a porta a um governo minoritário do PS é visto por muitos como um estender a mão a António Costa, o que não agrada aos militantes do partido, sobretudo aos mais passistas. Na TVI, José Miguel Júdice lembrou que quem vota nestas eleições diretas "são os fiéis entre os fiéis, os laranjinhas de sempre, os que estão mais zangados com António Costa, que lhe roubaram o poder". 

De resto, este afastamento de Rui Rio em relação ao PSD de Passos Coelho é algo que Santana tem usado a seu favor ao longo da campanha. O antigo provedor da Santa Casa tem procurado colar a imagem de Rio à de uma espécie de "traidor" do partido.

No debate na RTP, Santana até levou uma fotografia de Rio com Vasco Lourenço, da Associação 25 de Abril, e disse que Rio era “siamês” de Costa. Depois, acusou Rio de se contentar em ser uma "muleta" do PS.

Santana deverá insistir nessa colagem e resta agora saber se Rio vai continuar a responder a essa estratégia de forma contida, como até aqui, ou se tem guardado algum trunfo na manga.

 

4 - O vídeo de Santana a dizer que não tem hipóteses de ser primeiro-ministro  

Um trunfo de Rio poderá ser um vídeo de 2013, que recentemente entrou na campanha. O vídeo diz respeito à época em que Santana Lopes era comentador da CMTV. As imagens mostram Santana a dizer que "se concorresse a primeiro-ministro não tinha possibilidade de ganhar as eleições", "nem que o vento mudasse dez vezes".

Acho que depois do que passei em 2004 e 2005, por mais culpa minha ou não, acho que se concorresse a primeiro-ministro não tinha possibilidade de ganhar as eleições. Não tenho dúvida nenhuma sobre isso, nem que o vento mudasse dez vezes", sublinhou, na altura.

Mas, afinal, o vento mudou e pelo menos dez vezes para Santana Lopes.

A campanha de Rio nega estar a usar as imagens, mas a verdade é que o vídeo tem sido divulgado nas páginas informais de apoio ao antigo autarca. O assunto poderá aquecer o debater esta quarta-feira.