O resultado das eleições autárquicas não terá deixado margem para dúvidas dentro do PSD: é preciso mudar. Passos não se demite, mas prometeu “refletir” sobre a recandidatura. Foi o suficiente para Rui Rio avançar. E também se fala em Luís Montenegro. É, portanto, hora de “contar espingardas”.

Os órgãos do partido vão reunir-se esta terça-feira ao longo do dia: Comissão Permanente, Comissão Política e o Conselho Nacional. É, aliás, neste último que Passos Coelho pode anunciar que não se recandidatará, mantendo-se como presidente do partido até à eleição do sucessor, no próximo ano.

Entretanto, desde domingo que a candidatura de Rui Rio se mexe. Ontem, o ex-autarca do Porto já se reuniu com alguns “barões”, como Manuela Ferreira Leite, Silva Peneda, Feliciano Barreiras Duarte ou Arlindo Cunha, e hoje continua, com o presidente da distrital de Aveiro, Salvador Malheiro, um importante apoio com o qual está a contar.

Ao Diário de Notícias, Rui Rio comentou apenas: “O que era notícia é que eu não falasse com ninguém nesta altura.”

Mas poderá não ser o único. É o caso de Luís Montenegro, que nunca quis disputar a liderança com Passos, mas pensava candidatar-se a seguir às legislativas. O ex-líder parlamentar pode reunir fortes apoios, entre os quais Miguel Relvas, mesmo que a sua agenda apontasse para outro timing.

Os eventuais candidatos perfilam-se e os seus apoiantes também, ainda que não oficialmente. Há, no entanto, várias figuras do PSD a comentar a atual situação do partido.

Paulo Rangel, que hoje espera falar na Comissão Política, espera um debate que não seja "focado nas pessoas", mas num "programa mobilizador".

"Todos temos de contribuir para o processo de reflexão que o partido tem de fazer. Mais do que em nomes e números, que façamos uma análise e tomemos decisões que partam de uma reflexão profunda de qual é o lugar do PSD e qual é a sua missão neste momento no contexto nacional."

Esta terça-feira, o ex-presidente da JSD Pedro Duarte escreve no Público e propõe a convocação “imediata” de um congresso “para discutir ideias, projetos, estratégias e políticas”, antes de qualquer disputa da liderança.

“Temo que o PSD entre numa disputa, infantilizada e impercetível aos olhos dos portugueses, em torno de rostos e personagens. Impulsos primários dividirão o partido entre os ‘nossos’ e os ‘deles’, numa corrida desenfreada para alcançar não se sabe bem o quê. Perceberemos pouco as diferenças políticas em causa, mas reluzirão os ‘perfis’ e os chavões.”

Também o ex-dirigente do PSD Pacheco Pereira escreve hoje no mesmo jornal e diz esperar que o PSD mude “de grupo dirigente” e “de política”, sem referir nomes.

“Pode haver uma ou outra afirmação cosmética, e tudo continuar na mesma, seja com Passos Coelho ou com um seu seguidor e discípulo, ou pode haver alguma mudança, que, mesmo sendo pouca, se for na direcção certa, pode começar a virar uma página negra da história partidária.”