Rui Rio concorda com o uso de canábis para fins medicinais, com receita médica. O social-democrata assumiu uma posição contrária à do partido - que já fez saber que vai votar contra o diploma que vai ser discutido no Parlamento -, no debate entre os dois candidatos à liderança do PSD, transmitido pelas rádios Antena 1 e TSF, esta quinta-feira.

Não vejo porque não”, respondeu Rio à questão dos jornalistas sobre se concordava com o uso de canábis para fins medicinais.

Pedro Santana Lopes, por sua vez, respondeu que tem a mesma posição que o partido, ou seja, que está contra.

Esta foi uma das questões que surgiu no último debate entre os dois candidatos à liderança do PSD, numa altura em que faltam três dias para as eleições que vão escolher o sucessor de Pedro Passos Coelho.

Neste confronto, Santana Lopes, que já disse que não viabilizará um governo socialista minoritário, acusou o PS de falta de generosidade e disse que só quando os socialistas viabilizarem um governo PSD os dois partidos poderão "voltar a falar".

Nós temos uma tradição de generosidade com o PS, que o PS nunca tem connosco. (…) Mesmo que não ganhássemos eu não viabilizo um governo PS. (…) Se um dia o PS viabilizar um governo PSD, podemos voltar a falar.”

Rio, que já admitiu abrir a porta a um governo minoritário do PS para retirar os partidos mais à esquerda do poder, defendeu que não se deve quebrar o relacionamento com os socialistas e explicou porquê.  

Não devemos quebrar o relacionamento com o PS, de tal forma que depois não possamos fazer reformas estruturais que são vitais para o país.”

Outro dos temas que marcou este frente a frente foi a entrevista do social-democrata Miguel Relvas ao jornal Público. Relvas disse que o PSD ia escolher um líder para dois anos e revelou que ia votar em Santana Lopes.

Rio criticou duramente as declarações de Relvas, considerando que existe um mau “clima” no partido, onde se fazem muitas “rasteiras”. O candidato foi mais longe e deixou um aviso:

Se eu ganhar estamos mal porque não vou permitir isto (…) Quando temos a razão, os militantes dão-nos razão e os outros ficam empurrados lá no cantinho. Uma coisa é discordarem, outra é andarem com truques”.

E mais tarde, quando falava sobre as suas ideias para a modernização do partido, o antigo autarca do Porto insurgiu-se contra as "lapas que estão agarradas ao seu pequeno poder".

Santana Lopes, por seu turno, também não achou adequadas as considerações de Relvas e até pareceu embaraçado com o apoio à sua candidatura. Apoio não, voto, como o próprio fez questão de sublinhar. “Ele diz que vota e não que apoia”. Há diferença? “Para mim há, para mim há”, respondeu prontamente.

Sobre se se demitiam, caso não conseguissem formar governo após as eleições legislativas de 2019, Santana disse que não trabalha “com cenários negativos desses” e Rio disse que “não, se não conseguir fazer governo logo se verá as circunstâncias em que isso acontece, vai depender de muitos fatores”.

Falou-se ainda na passagem dos dois candidatos pelas câmaras das duas maiores cidades do país (Santana em Lisboa, Rio no Porto) e Rio teve a oportunidade de dizer que, nas autárquicas de 2013, em que não apoiou o candidato do PSD à câmara do Porto, Luís Filipe Menezes, mas o independente Rui Moreira, "o PSD nacional esteve mal" e lhe fez uma "afronta". 

Não podia admitir estar do lado de alguém que ia destruir tudo o que fiz. Se fosse hoje fazia rigorosamente a mesma coisa. A minha dignidade não está à venda. (...) O PSD nacional esteve mal, quis-me fazer uma afronta", destacou Rio.

Santana respondeu, lembrando que nas últimas autárquicas Rio já não apoiou Moreira, mas Álvaro Almeida. "Passas a vida nessas zangas", atirou. 

Os dois defenderam ser necessária uma revisão da Constituição. Santana "gostava de uma Constituição menos marcada do ponto de vista ideológico", mas ressalvou que esse é um tema que "não está nas prioridades da intervenção política que quer fazer" a curto prazo.

Rio, por seu lado, acha que "é quase impossível não mexer na Constituição se quisermos fazer uma reforma de fundo e de regime" e defendeu uma Constituição mais curta. "Admito fazer propostas e daí decorrerá onde é que se tem de mexer na Constituição por força dessas ideias", acrescentou. 

O debate começou com as virtudes e os defeitos que os candidatos conseguiam destacar em si próprios. E estranhamente Santana apontou um defeito a si próprio que a maioria dos leitores consideraria uma virtude: "a generosidade". Mas a generosidade é um defeito? "Às vezes é um defeito, gosto de reunir, de perdoar, em política deve-se ter um killer instinct".

Já Rio apontou como defeito "a idade" pois "quando temos 20, 30 anos temos inflexibilidade em relação aos princípios" e "a idade traz mais flexibilidade",  traz o "dar um passo atrás para dar dois à frente".

Neste último debate, os ataques pessoais não tiveram tanto protagonismo. Santana acha que Rio "pode abrir um consultório de psicologia depois disto que está um especialista", mas, para Rio, quem usa truques, psicológicos ou não, é o antigo provedor da Santa Casa. "Isto é um perigo falar em primeiro, que ele na dobra usa uns truques", sublinhou.