O ministro dos Negócios Estrangeiros português, Rui Machete, pediu à União Europeia «empenho reforçado» para com os países do sul do Mediterrâneo, atingidos pelo terrorismo e tráfico internacional, que considerou uma ameaça para a Península Ibérica e Itália. O apelo feito por carta à UE foi divulgado esta terça-feira, quando Machete discursava  na sessão de abertura do seminário diplomático, que decorre até quarta-feira, em Lisboa.

«Escrevi recentemente à Alta Representante [da União Europeia para a Política Externa e Segurança,] Federica Mogherini, solicitando-lhe um empenho reforçado da União Europeia para com os países do sul do Mediterrâneo. Uma presença e visibilidade acrescidas nesta região e nos 'fora' internacionais relevantes ajudará certamente a que a União seja considerada um parceiro chave e estratégico na resolução dos problemas no flanco sul europeu», disse o ministro.


Questionado, após o discurso, sobre a situação de portugueses que aderiram ao autoproclamado Estado Islâmico e que eventualmente pretendem regressar ao país, o governante escusou-se a responder, afirmando tratar-se de «matéria, na parte concreta, muito delicada».

«O problema do 'jihadismo' é muito delicado. Também estamos preocupados com a situação de desagregação que se está a verificar na Líbia, e onde há efetivamente movimentos 'jihadistas', aliás em conexão com o 'DAESH' [acrónimo árabe para Estado Islâmico do Iraque e da Síria]», disse aos jornalistas.


Antes, o chefe da diplomacia portuguesa destacara que o norte de África e as regiões do Sahel e subsaariana também têm sido atingidos pelo terrorismo, com «preocupantes interligações entre movimentos terroristas e tráfico ilícito, com realce para o narcotráfico», que ameaçam a Europa e, em particular, a Península Ibérica e a Itália.

Na sua intervenção, Machete apontou o emergir do autoproclamado Estado Islâmico como um dos três grandes desafios que no ano passado se colocaram à comunidade internacional.

«O terrorismo internacional tornou-se, infelizmente, uma ameaça cada vez maior com o surgimento formal da nova fisionomia do DAESH», que se autoproclamou como califado e, assim, abandonou «de um só golpe a ideia da democracia, do direito internacional, dos direitos humanos, do Estado-Nação e das suas fronteiras», encontrando entre os jovens alvos preferenciais de recrutamento, referiu o ministro.


Este é um inimigo que requer, «para ser vencido, instrumentos de combate mais sofisticados e uma abordagem militar diferente», sublinhou Machete, que recordou que Portugal aderiu à coligação internacional liderada pelos Estados Unidos para combater este grupo radical.

A nível interno, o Governo irá analisar e aplicar as propostas dum grupo de trabalho interministerial para evitar a ida de combatentes para a Síria e Iraque, mas o governante adiantou já que «grande parte das medidas propostas pelas Nações Unidas estão já implementadas ou em vias de ser».

Portugal já ofereceu 230 mil euros para o auxílio aos refugiados vítimas do radicalismo do grupo Estado Islâmico e vai participar numa missão de assistência e apoio ao Iraque, de formação e treino militar, no âmbito da coligação internacional.

Outro problema que atingiu as relações internacionais em 2014 foi a crise no leste europeu, com a anexação da Crimeia pela Rússia, o que fez regressar a tensão entre Moscovo e os Estados Unidos e a Europa, que se «julgava definitivamente ultrapassada desde a queda do Muro de Berlim», considerou.

Moscovo quer «praticar uma estratégia própria de uma potência nuclear de primeira grandeza, apesar de ter deixado de ser o superpoder de outrora», e a NATO «viu-se forçada a rever com urgência as suas prioridades», destacou Machete, que mencionou que Portugal liderou entre setembro e dezembro passados, «a missão de policiamento do espaço aéreo dos países bálticos, com seis caças F16 e uma aeronave de patrulhamento marítimo» e preparou sanções económicas à Rússia.

No entanto, destacou, há que «manter abertos canais diplomáticos de comunicação entre a União Europeia e a Rússia» para a resolução do conflito e porque Moscovo «poderá vir a desempenhar no futuro um papel particularmente importante na resolução da questão síria, na luta contra o autoproclamado ISIS e, em geral, na estabilização do Médio Oriente».

Por fim, o maior surto de sempre do vírus do Ébola ameaçou a segurança internacional e o combate a este flagelo contou, da parte de Portugal, com um contributo de 200 mil euros para a Organização Mundial de Saúde e um apoio de um milhão de euros à Guiné-Bissau, onde será instalado um laboratório móvel, além de meios materiais e humanos.