O ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, avisou hoje que as ameaças atuais «de movimentos retrógrados e intolerantes» devem «ser levadas a sério» e que a batalha não se faz no terreno, mas nas consciências das populações.

«Vivemos tempos muito complicados, que nos obrigam a refletir sobre o caminho que pretendemos para o futuro e nos obrigam a assumir, de uma forma clara, as nossas responsabilidades. As ameaças que nos são dirigidas a todos, a sul ou a norte, de movimentos retrógrados, xenófobos e intolerantes, devem ser levadas a sério», defendeu o governante, que intervinha no encerramento do Fórum de Lisboa, uma iniciativa do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa, que discutiu durante dois dias os processos democráticos e eleições no pós-«primavera árabe».

Para Rui Machete, «as ameaças à democracia e aos direitos das populações não surgem apenas da margem sul do Mediterrâneo» e não podem ser ignoradas as «raízes da intolerância que germinam igualmente no espaço europeu».

O ministro considerou que a «batalha entre a civilização e o regresso ao obscurantismo medieval» não se vai travar «num campo de batalha algures entre a esbatida fronteira da Síria e do Iraque», mas será apenas vencida «pelos corações e pelas consciências das nossas populações, pelos nossos jovens, eles sim, o futuro da democracia e dos direitos fundamentais».

Em concreto, sobre os países árabe, o chefe da diplomacia portuguesa apontou a «emergência de uma sociedade civil corajosa e determinada que exige uma participação ativa nas decisões coletivas que afetam as suas vidas», com os jovens e as mulheres a assumirem «um papel central na transição destas sociedades para a democracia» e a oferecerem «um contributo fundamental para a estabilização» destas nações.

«Os governos e os responsáveis políticos, no sul e no norte, têm por isso a obrigação de promover e coordenar as estratégias que possibilitem que estas legítimas expectativas possam ser atendidas», defendeu Rui Machete.

Por outro lado, «a gravidade da situação» na Síria e na Líbia, ainda em conflito, «implica que se encontrem respostas adequadas e o desenvolvimento de estratégias de atuação coordenada entre Estados».

Mas, salientou, «também há casos de sucesso», como o da Tunísia, que «demonstrou que o processo de mudança deve ser potenciado pela cooperação e pelo diálogo entre as diversas forças da sociedade: políticas, religiosas e sociais».

Esta é «uma oportunidade única de promoção social, política e económica» nos países da vizinhança sul da Europa, defendeu o ministro, que enalteceu o papel das mulheres e dos jovens.

«Na sociedade livre, na qual a democracia e os direitos fundamentais são basilares, não podemos ignorar uma parte da população por força de uma visão arcaica da sociedade. Porque não podemos abandonar as nossas juventudes nem condenar as nossas mulheres a um papel menor e porque os nossos povos assim o merecem».

O Fórum de Lisboa do Conselho da Europa reuniu durante dois dias governantes e especialistas de mais de 50 países e debateu os »processos eleitorais e a consolidação democrática nos países do sul do Mediterrâneo».