Uma mão cheia de desígnios e uma mão cheia de sinónimos para unir aquilo que está dividido. Marcelo Rebelo de Sousa quer o país social, mas também político, a apertar as mãos em nome do interesse nacional. O novo Presidente da República foi  eleito com 52% dos votos e fez o pleno em todos distritos. No discurso da vitória, prometeu “servir todos por igual”, reforçou os apelos para os líderes partidários e Governo ouvirem e deixou expressa a intenção de ser politicamente "imparcial". Exercerá uma magistratura à sua maneira.

"Não abdicarei, como é óbvio, de seguir o meu próprio estilo e de agir de acordo com as minhas convicções"​


Marcelo, o professor, fez uma conta de somar: "não há sociedade civil + classe política + diáspora + forças armadas, como não há portugueses vencedores e vencidos". Para chegar a um resultado de sumir: "Não há vencidos nestas eleições presidenciais", proclamou.

Afugentando a ideia de que alguém perdeu, Marcelo deixou um "cumprimento afetuoso" aos seus "oponentes", que disse "nunca" terem sido seus adversários. E prometeu fazer tudo para que todos ganhem, proclamando não haver "exceções nem discriminações" entre os cidadãos. Por isso, deixou-lhes a promessa: "E eu serei, a partir de  agora o Presidente de todas as portuguesas e de todos os portugueses. Porque a Constituição o consagra e porque a minha consciência o dita".

Marcelo já tinha aberto a janela para os próximos cinco anos ainda durante a campanha eleitoral, falando quase como se já fosse Presidente. Hoje, centrou-se nesse horizonte e na urgência da construção de consensos para fazer o país avançar.

Os "propósitos essenciais", como os designou, são abrangentes, mais genéricos, mas com esse fio condutor. Encontramos vários sinónimos do aperto de mãos que, enquanto chefe de Estado, deixa claro querer alcançar, acima de partidos políticos.

1º Fomentar a unidade nacional

“Um país como o nosso a sair de crise social profunda não se pode dar um luxo de desperdiçar energias”, nem ser domado por “crispações”.


"Tudo farei para unir aquilo que as conjunturas dividam, estreitando a relação, fazendo pontes, cicatrizando feridas. Quanto mais coesos formos, mais fortes seremos”.


2º Reforçar a coesão social

Prometeu ser politicamente "imparcial" e socialmente “empenhado e atuante”.

“Olhando para os mais pobres, carenciados, desfavorecidos, os que vivem nas periferias das sociedades, como fala o Papa Francisco. Não é uma questão de conjuntura”


3º Promover as convergências políticas

O novo Presidente da República entende que se perdeu "um pouco" em Portugal a cultura do compromisso e do consenso. "Nada de mais errado”. Sublinhou que a divergência de ideias é salutar em democracia mas apelou à convergência para os desígnios nacionais.

"Ninguém pode nem deve querer diminuir os partidos políticos, mas ninguém compreenderia que interesses partidários impedissem o Presidente de avançar para compromissos e consensos nacionais”


4º Incentivar o "frutuoso" relacionamento entre órgãos de soberania e agentes políticos, económicos, sociais e culturais

Marcelo entende que é tudo uma questão de consciência, que deve ter "qualquer português formado"

"O Presidente da República é o primeiro a querer que o Governo governe com eficácia e sucesso. Do mesmo modo, é indispensável que a oposição seja ativa e representativa"

Diz mais: isto não é "uma questão de conveniência", mas sim "um imperativo" de afirmação do crescimento e da qualidade da democracia.

5º Conciliar justiça social com crescimento económico e estabilidade financeira

Marcelo advertiu que vivemos um tempo que "não é fácil". Nem no mundo, nem na Europa. 

"É preciso agir com prudência para minimizar riscos”.


Se  afeto terá sido a palavra que mais usou na sua campanha eleitoral, hoje, embora com os olhos a brilhar e algo emocionado, Marcelo recorreu muito menos a ela. O substantivo derivou em adjetivo no início do discurso para justificar a escolha da sua Faculdade de Direito para celebrar a noite eleitoral e, lá está, para cumprimentar os outros candidatos.

O  novo Presidente de Portugal acredita que os próximos cinco anos "não serão um tempo perdido", mas sim de "recuperação e futuro". Foi para esse horizonte e com um novo verbo a conjugar que deixou as suas últimas palavras: "Arrancar para um futuro à medida dos nossos sonhos. É hora de refazer Portugal".