O professor e investigador Eugénio Costa Almeida afirmou esta terça-feira duvidar que o anúncio do fim da parceria estratégica entre Angola e Portugal seja «para levar muito a sério», considerando que é «mais para consumo interno».

Hoje, durante o discurso sobre o estado da nação, que abre a sessão legislativa na Assembleia Nacional de Angola, o Presidente angolano, José Eduardo dos Santos anunciou o fim da parceria estratégica com Portugal.

«Só com Portugal, as coisas não estão bem. Têm surgido incompreensões ao nível da cúpula e o clima político atual, reinante nessa relação, não aconselha à construção da parceria estratégica antes anunciada», disse José Eduardo Santos.

Em declarações à Lusa, Eugénio Costa Almeida, professor e investigador do Centro de Estudos Africanos do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa e natural de Angola, recorda que, geralmente, as investidas «diárias» da imprensa angolana contra Portugal, nomeadamente do Jornal de Angola, costumam desencadear ¿sempre um qualquer quid pro quo nas relações bilaterais.

Mas, agora, é preciso aguardar «os desenvolvimentos» das diplomacias portuguesa e angolana, frisou, recordando que a declaração do Presidente angolano foi «sucinta», embora quem a ela assistiu descreva que José Eduardo Santos «não estava, de facto, muito satisfeito».

Se, eventualmente, o fim da parceria estratégica se vier a concretizar, Eugénio Costa Almeida admite que «pode pôr em causa a cimeira [bilateral] já prevista». Portugal e Angola agendaram para fevereiro, em Luanda, a realização da primeira cimeira bilateral.

A lista de negócios que podem sentir os efeitos do fim da parceria também é extensa, apontou.

«Pode pôr em causa, direta ou indiretamente, a fusão da Zon e Optimus, pode pôr em causa os investimentos da Sonangol, nomeadamente no setor financeiro, em Portugal, pode pôr em causa a participação estratégica da Sonae em Angola e, se me permite a ironia, pode provocar um certo tremor de terra na Avenida da Liberdade», enumerou o investigador, aludindo às compras que cidadãos angolanos fazem nas lojas caras da avenida lisboeta.

Eugénio Costa Almeida desvaloriza o peso do caso que envolveu o ministro dos Negócios Estrangeiros português na declaração do Presidente angolano.

Há uma semana, o Diário de Notícias noticiou que, em entrevista à Rádio Nacional de Angola, divulgada no dia 19 de setembro, Rui Machete pediu desculpa a Angola por investigações do Ministério Público português a empresários angolanos.

Recordando que a entrevista à Rádio Nacional de Angola data de setembro, o professor considera que «o impacto em Angola foi diminuto», se comparado com «os efeitos secundários» que teve em Portugal.

O investigador apontou ainda que, apesar de «a bomba» do discurso de José Eduardo dos Santos, pelo menos para as relações externas, ter sido «a hipótese do fim da parceria estratégica com Portugal», o que mais importou aos angolanos «foi a ênfase que ele deu à defesa da riqueza e dos mais ricos», cita a Lusa.