O líder parlamentar do Movimento popular de libertação de Angola (MPLA, no poder) classificou hoje como «realista» e «sensato» o anúncio feito em Luanda pelo Presidente José Eduardo dos Santos sobre o fim da parceria estratégica com Portugal.

Em declarações à agência Lusa, Virgílio de Fontes Pereira, líder parlamentar do MPLA, disse que o anúncio de José Eduardo dos Santos se justifica porque, considerou, «alguns setores das elites portuguesas não têm historicamente compreendido o que se passa em Angola».

Além das «várias desinteligências» que disse terem-se verificado, aquando da independência e durante a guerra civil angolana, Virgílio de Fontes Pereira estranha que essas situações se repitam.

«O que é mais estranho, agora no período de paz, numa altura em que Angola cada vez mais dá sinais de estabilidade, de afirmação democrática e até de intencionalidade no que diz respeito ao relacionamento diplomático, político e económico com Portugal», acentuou.

Para o líder parlamentar do partido no poder em Angola desde a independência, em 1975, «não é compreensível» que alguns setores da política portuguesa «tenham esse permanente desejo de beliscar as relações com um país como Angola».

«Nós os angolanos continuamos a considerar Portugal como um país irmão, continuamos a considerar o povo português como irmão, mas não podemos aceitar que algumas vozes pensem que eles é que mandam em Angola, mesmo que tenham sido históricos na política portuguesa», acrescentou.

Virgílio de Fontes Pereira disse ainda à Lusa que, ao contrário do que se passa em Portugal, nunca ninguém viu em Angola quem quer que fosse a questionar a atual situação económica portuguesa.

«Nós não nos temos colocado em bicos de pés, nem expressamente para nos intrometermos na forma que Portugal vive. Nunca ouviu nenhum pronunciamento de angolanos, de nenhum político de responsabilidade em Angola a referir-se aos problemas que Portugal vive neste momento e não são poucos», cita a Lusa.

«O investimento privado angolano em Portugal acaba até por beneficiar a economia portuguesa neste momento. A abertura que a nossa economia dá aos bancos, por exemplo privados, ao setor empresarial e financeiro aqui serve também para ajudar a economia portuguesa, a estabilidade da economia portuguesa. Não percebemos porquê dessa atitude revanchista e de algum modo paternalista que alguns setores da política portuguesa assumem contra o nosso país», concluiu.

O Presidente José Eduardo dos Santos anunciou o fim da parceria estratégica com Portugal durante o discurso que proferiu hoje de manhã em Luanda, na Assembleia Nacional, sobre o estado da Nação.

«Só com Portugal, as coisas não estão bem. Têm surgido incompreensões ao nível da cúpula e o clima político atual, reinante nessa relação, não aconselha à construção da parceria estratégica antes anunciada», disse José Eduardo Santos.