O último debate do Estado da Nação antes das férias do verão não teve surpresas. Entre as declarações de "humildade" das esquerdas, sobretudo Governo e Bloco de Esquerda, que se mostraram claramente disponíveis para discutir a Orçamento do Estado para 2019 e as convicções do PCP, seguro de que as melhorias sociais não teriam sido possíveis sem a intervenção do partido, surge uma direita cheia de trocadinhos e pronta a "atacar" a geringonça.

Já nas chamadas declarações de fundo, foi o líder da bancada parlamentar do PSD que abriu as hostilidades. Após criticar o discurso de António Costa, na abertura do debate, Fernando Negrão defendeu que o PS, em 2015, “herdou um país em plena recuperação”, com o desemprego a diminuir, as contas equilibradas e a credibilidade externa recuperada".

O Governo PSD/CDS teve a coragem de fazer reformas estruturais, reformas de que o PS colhe frutos como reconhecem as principais instituições internacionais", afirmou. “Rejeitamos a cegueira de quem ignora este facto", assegurou Negrão, gerando alguns protestos entre os socialistas.

"Ao PSD não custa reconhecer os resultados alcançados, sobretudo nas contas públicas", disse, embora haja casos em que se alcançaram "resultados apesar da ação governativa".

Fernando Negrão salientou os benefícios da conjuntura internacional: "O Governo tem-se limitado a andar à boleia da conjuntura externa".

Este Governo não tem uma matriz reformista", criticou. "A natureza da maioria de esquerda é a do escorpião, não resiste a fazer mal quando pode e promete fazer o bem", acusou.

Veja também: 

O líder da bancada do PSD acusou ainda o primeiro-ministro de “quebrar compromissos” e falhar aos professores, às vítimas dos incêndios, ao desinvestir nos serviços públicos ou aumentando o número de precários do Estado.

"Se isto não é um Governo esgotado, então o que é?", questionou, sendo entusiasticamente aplaudido pela bancada do PSD. 

Fernando Negrão apontou ainda outros números menos positivos, mas realçou que o caso da Saúde "é, seguramente o mais gritante", descrevendo um "SNS sem capacidade de resposta", que "falha diariamente aos portugueses". 

"Ao contrário do que diz, esta geringonça não está nos corações dos portugueses", rematou Fernando Negrão, contrariando a afirmação do primeiro-ministro e aplaudido de pé pela bancada do PSD.

"Escolha de depender de comunistas e trotskistas para governar foi sua sr. primeiro-ministro"

Mais à direita, Assunção Cristas voltou à carga: "A escolha de depender de comunistas e trotskistas para Governar foi sua sr. primeiro-ministro. A atração pelos partidos que não aceitam a Europa e não percebem o setor privado é sua sr. primeiro-ministro. A vontade de governar ao ritmo das exigências irresponsáveis de quem nunca governou é sua sr. primeiro-ministro. As fantasias das esquerdas são as suas a irresponsabilidade das esquerdas é sua. O populismo das esquerdas é o seu."

A líder do CDS-PP deu como exemplo: "as 35 horas que o sr. aprovou sem cuidar de garantir que os serviços estavam preparados para dar conta do recado. Quando o que devia ter feito era aprovar a medida, sim. Mas depois de tudo preparado. Quando os utentes dos serviços não sofressem consequências."

Cristas dedicou boa parte do início da sua intervenção a enumerar tudo o que, na conceção do seu partido, está mal no país. A lista foi longa e começo pelos "serviços públicos em colapso. Serviços hospitalares que encerram. Unidades de saúde familiar que não abrem. Ferrovias em estado critico (...)" para terminar nas "instalações militares assaltadas e Interior que vê adiado o estatuto fiscal. Tudo isto quando o país continua a tentar recuperar da maior tragédia que conheceu nas últimas décadas. Este é o retrato do país ao dia de hoje."

"País governado pelas esquerdas e que, por isso, tem o que sempre sucede quando as esquerdas se encontram para colocar em prática as suas fantasias."

Cristas assegurou que aquilo que de se gaba o Governo foi herdado do anterior e "tudo o resto que havia para fazer deixaram por fazer porque não quiseram. Os salários não descolam e a economia também não. Piorámos em todos os indicadores de atração de investimento. Falta formação profissional e mão-de-obra qualificada."

"Caminho está definido, mas não inteiramente percorrido" 

Na resposta às críticas da direita, o líder parlamentar do PS, Carlos César, falou para a esquerda, afirmando que o Governo e o PS contaram com o apoio e o impulso dos seus parceiros parlamentares" que "asseguraram a investidura do Governo e a execução de medidas resultantes das leis orçamentais.

Nem tudo o que fizemos foi tudo o que havia para fazer, nem tudo o que fizemos foi bem feito, mas não faltamos à verdade se dissermos que muito fizemos e que muito fizemos bem", defendeu.

 

O Governo e o PS contaram para isso com o apoio e o impulso dos seus parceiros. Contamos com o seu apoio para partirmos de onde partimos e para chegarmos onde chegámos. Partilhamos sucessos e dificuldades. Continuaremos esse trabalho, reforçando e reinventando uma convergência sem nunca prejudicar a autoridade e autonomia das forças envolvidas", salientou Carlos César sobre os parceiros de governação.

O líder parlamentar do PS garantiu que os socialistas continuarão o trabalho feito nos últimos dois anos e meio "reforçando e reinventando uma convergência que nunca prejudicou, e que nunca prejudicará, a identidade e a autonomia de cada uma das forças políticas envolvidas nessa cooperação".

O presidente do grupo parlamentar do PS defendeu que é preciso "pensar para além do dia de hoje", sendo essa a agenda dos socialistas. "Uma agenda longe de estar esgotada”, garantiu.

Para Carlos César, deve haver por parte do PS uma agenda de políticas reformistas que melhorem a eficiência e a estabilidade dos regimes de proteção social, mas também nas áreas do ordenamento do território, em setores como as florestas e o mar.

O deputado admitiu as dificuldades do Serviço Nacional de Saúde, mas salientou os números que dão conta de maior eficiência dos serviços. "Sabemos que a recuperação tem de ser mais rápida", reconheceu.

Na educação, Carlos César falou na "tendência de redução do insucesso escolar", mas pediu melhorias nas qualificações dos portugueses.

Quanto à competitividade, o socialista lembrou o lugar de destaque do país no “ranking” europeu da inovação, mas pediu "maior produção de doutorados".

"Superar as dificuldades, continuar os sucessos, prosseguir o caminho e cuidar do futuro. Fazer da esquerda portuguesa um dos motivos do Portugal vencedor", rematou Carlos César.

Governo deve "fazer escolhas" que não pelo défice e a dívida

"Do outro lado da barricada", o líder comunista desafiou o Governo a "fazer escolhas" que não pelo défice e a dívida, num país em que se diz "que não há dinheiro para tudo, mas sobra sempre muito para uns poucos".

É preciso fazer escolhas, que sirvam os trabalhadores, o povo e o país e isso exige romper com os constrangimentos que inviabilizam o desenvolvimento, como o da submissão ao euro e do serviço da uma dívida insustentável que vai sugar 35 mil milhões de euros em juros até 2022", afirmou Jerónimo de Sousa na sua declaração de fundo.

O secretário-geral do PCP defendeu a necessidade de "canalizar a margem de crescimento económico para o investimento público, defesa da produção nacional e reforço dos serviços (saúde, educação, transportes)" e "travar a drenagem dos dois mil milhões de euros ao ano para as Parcerias Público-Privadas (PPP) ou os mais de 1,2 mil milhões gastos em 'swap' (contratos de cobertura de risco financeiro)".

Contudo, o líder comunista também admitiu que "o estado da nação é o estado de um país em que há avanços, mas que precisa de outra política para garantir o seu futuro".

Equipamento militar "é lixo" de que o país não precisa

Antes, a coordenadora do BE insurgiu-se contra o anunciado aumento de despesas em equipamento militar, considerando que “é lixo” de que o país não precisa, e elencou medidas que quer ver no próximo Orçamento do Estado.

Senhor primeiro-ministro, gastar em equipamento militar e armamento de que não precisamos é comprar lixo, mesmo que em parte seja ‘made in’ Portugal. Porque haveremos de comprar lixo e desperdiçar mais de mil milhões de euros a cada ano?”, questionou Catarina Martins.

Também na sua intervenção final, a deputada do Bloco de Esquerda perguntou a António Costa por que “falta o investimento no território e no desenvolvimento do interior” ao mesmo tempo que “promete à NATO gastar mais de mil milhões de euros a cada ano em despesa militar”.

“Não é em defesa civil, não é para responder a necessidades do nosso país”, sustentou, considerando que esse dinheiro “falta nas escolas” e podia “substituir material obsoleto nos hospitais”.

E, acusou: “Porque aceitamos as metas de Trump [Presidente norte-americano] enquanto mantemos a ciência e a cultura na penúria?”.

Tal como Jerónimo de Sousa, que defendeu outras políticas, Catarina Martins começou por afirmar que, ao fim de três anos, “não vai tudo bem” e apontou a “falta de investimento” como “o maior problema que o país enfrenta”.