O ex-primeiro-ministro José Sócrates considerou este domingo que um Governo do PS é "única solução" para o atual impasse político, recusando as acusações da direita de que se trata de um golpe político.

"Golpe deram eles em 2011", sublinhou José Sócrates, referindo-se ao PSD e ao CDS-PP, numa intervenção no almoço organizado em sua homenagem pelo movimento Cívico "José Sócrates Sempre", em Lisboa.

Anunciando que a sua "voz está de volta ao debate público", José Sócrates falou pela primeira vez sobre o impasse aberto com a aprovação de uma moção de rejeição ao programa do Governo de coligação PSD/CDS-PP, que implicou a demissão do executivo, recusando a tese de golpe político e considerando que um executivo liderado pelo PS "é a única possibilidade".

"O único golpe político [de] que eu tenho memória foi um golpe que aconteceu em 2011, quando a direita política se aliou à extrema-esquerda para atirar abaixo o Governo do PS", disse, recordando que nessa altura PSD e CDS-PP não se constituíram em nenhum Governo alternativo e que apenas queriam a realização de eleições antecipadas, porque o seu único objetivo era "ir rapidamente para o poder".

Questionando se alguém ouviu "esses senhores" na altura a falar em estabilidade, prudência ou responsabilidade, José Sócrates referiu-se concretamente ao ‘chumbo' ao chamado PEC IV - "acordo que protegia o nosso país da chegada da ‘troika’" - sustentando que essa rejeição teve como único objetivo "satisfazer a sede de poder".

Além desta nota sobre a atualidade política e das acusações deixadas ao Presidente da República, José Sócrates fez ainda uma breve referência ao "espetáculo público" das "divergências" entre o primeiro-ministro e a ministra das Finanças sobre a devolução da sobretaxa de IRS em 2016.

Contudo, a maior parte da intervenção de quase meia hora foi centrada na sua situação judicial, insistindo nas críticas à ausência de provas contra si e à demora na divulgação da acusação.

"Não sei se estas pessoas têm consciência quanto isto fere o Estado de direito e desprestigia o Estado de direito", frisou, falando mesmo em "desprestígio internacional" do Estado de direito.

Lendo mesmo algumas frases do inquérito relativamente aos argumentos utilizados para a sua prisão preventiva, nomeadamente no que diz respeito ao perigo de fuga e de perturbação do inquérito, o antigo primeiro-ministro insistiu na questão do "desprezo pelos prazos" que tem acontecido, considerando que é "verdadeiramente uma vergonha" que passado um ano da sua prisão preventiva continuem a não existir provas ou acusação.

No discurso, que começou com agradecimentos ao apoio que lhe tem sido demonstrado ao longo do último ano, José Sócrates fez questão de destacar a amizade demonstrada pelo antigo Presidente da República Mário Soares, que se encontrava presente no almoço, sublinhando que neste tempo "conseguiram muita coisa", mas não o conseguiram "isolar".

Além de Mário Soares, entre os mais de 400 participantes no almoço, estavam o antigo presidente da Assembleia da República Almeida Santos, o secretário-geral da UGT, Carlos Silva, os antigos ministros Mário Lino e Alberto Costa, os ex-secretários de Estado Paulo Campos, Vitalino Canas e Valter Lemos e o antigo presidente da Câmara Municipal de Loures Carlos Teixeira.

José Sócrates, que se tornou no único chefe de Governo português a ser detido preventivamente em Portugal, foi indiciado por crimes de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais, num caso que envolve o empresário Carlos Santos Silva, o antigo ministro socialista Armando Vara, o administrador do grupo Lena Joaquim Barroca, e o empresário Helder Bataglia, ligado ao empreendimento Vale do Lobo, no Algarve, entre outros.