O PS acusou, nesta quarta-feira, o PSD de comportar-se como "má oposição" nas negociações do Orçamento entre Governo e Bruxelas, com os sociais-democratas a contraporem que os socialistas tentam reescrever a História e recorrem a táticas totalitárias.

Estas posições foram trocadas em plenário da Assembleia da República entre o vice-presidente da bancada do PS João Paulo Correia e o dirigente do Grupo Parlamentar do PSD Miguel Morgado, num debate tenso sobre o processo de negociação do Orçamento do Estado para 2016 com a Comissão Europeia.

O vice da bancada socialista sustentou a tese de que, nas negociações com Bruxelas, "o que está verdadeiramente em causa é aquilo que o anterior Governo mentiu aos portugueses", numa alusão à controvérsia sobre se medidas como a devolução de salários da administração pública são estruturais ou temporárias.

"Ainda esta semana vimos o PSD a comportar-se como a má oposição que nenhum país democrático deseja. No momento em que o Governo defende o interesse nacional em Bruxelas lá veio o PSD atacar o Governo. O PSD ataca o Governo no momento em que o Governo defende em Bruxelas o fim da austeridade", declarou João Paulo Correia.

Na resposta, Miguel Morgado considerou que o PS está a recorrer a um discurso filosófico-político próprio das correntes "milenaristas", falando num passado de "trevas" quando se refere aos últimos quatro anos e procurando ao mesmo tempo "apagar da memória dos portugueses" quem na realidade conduziu Portugal a uma situação de bancarrota em 2011.

"O PS inventa agora uma narrativa própria das correntes totalitárias, aludindo a supostos inimigos da pátria e a traidores nacionais. O PS pretende agora transformar derrotas em vitórias", atacou o dirigente do Grupo Parlamentar do PSD.

Na mesma linha, a deputada do CDS-PP Cecília Meireles acusou o PS de ensaiar "uma operação de branqueamento" em relação à conduta do executivo de José Sócrates, o que levou João Paulo Correia a contra-argumentar logo a seguir. 

"O CDS-PP é bipolar, porque quando está na oposição faz-se passar pelo partido do contribuinte ou do agricultor, mas quando chega ao Governo veste a pele do lobo", disse.

Uma das críticas mais cerradas dirigidas às bancadas do PSD e do CDS-PP partiu da deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua.

"A direita, que sempre disse que só procedia a cortes porque era obrigatório e a única solução, vai agora a correr ter com a imposição externa [Bruxelas] pedir-lhe que trave o Orçamento do Estado para 2016 e trave a democracia portuguesa. A direita portuguesa sabe que só sobrevive se esmagar este Orçamento", sustentou Mariana Mortágua.

Pela parte do PCP, Paulo Sá criticou a "chantagem e a pressão inaceitável que está a ser exercida pela Comissão Europeia sobre Portugal, com o apoio do PSD e CDS-PP", enquanto o deputado de "Os Verdes" José Luís Ferreira observou que "o parlamento está dividido".

"Temos uma parte deste parlamento apenas preocupada com a ‘santa' União Europeia", observou.

 

PSD e os "danos de reputação"

O PSD defendeu hoje que o Governo provocou "danos de reputação" a Portugal com a condução do processo orçamental, e em resposta ouviu o PS acusar sociais-democratas e centristas de "tentativa de boicote" junto da Comissão Europeia.

Este debate começou com uma declaração política do PSD em plenário, feita por Luís Campos Ferreira, que afirmou que o executivo do PS demonstrou "impreparação" e "falta de credibilidade" na preparação do Orçamento do Estado para 2016 e não terá "uma segunda oportunidade para criar uma primeira boa impressão".

Na resposta, o deputado do PS João Galamba acusou o PSD de "tentar influenciar negativamente a Comissão Europeia no sentido de impor mais austeridade aos portugueses", acrescentando: "Cá estaremos para ver a sua azia no final de todo este processo." Depois, incluiu também o CDS-PP nesta acusação de "tentativa de boicote deliberado".

"Enchem a boca de patriotismo, usam a bandeira na lapela, mas não perdem a oportunidade para minar os esforços do Governo legítimo da República", alegou o socialista.

A deputada do CDS-PP Cecília Meireles reagiu às palavras de João Galamba considerando-as "uma vergonha" e rejeitou que o patriotismo da sua bancada seja julgado por "alguém que trouxe a troika e fugiu às responsabilidades", observando: "Nós não queremos ver esse filme outra vez, não queremos que Portugal volte a passar por isso."

Quanto ao Orçamento do Estado para 2016, Cecília Meireles disse que o CDS-PP deseja "que as coisas corram bem para Portugal", mas discorda do caminho seguido: "O nosso caminho era diferente, era o do gradualismo, porque nós queremos que a reposição de rendimentos seja para sempre."

A seguir, o deputado do PSD Luís Campos Ferreira declarou que não iria "responder nos mesmos moldes" ao socialista João Galamba, que acusou de discursar com um "misto de sobranceria com falta de educação", e reiterou que há "falta de credibilidade" no esboço orçamental.

O ex-secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação invocou as posições assumidas pelo Conselho de Finanças Públicas e pela Unidade Técnica de Apoio Orçamental, e perguntou ao PS se também acusa essas entidades de "pressionar Bruxelas".

"Não nos podemos pôr com essas pantominices, não fica bem. E o senhor deputado pode achar que tem muita gracinha, mas não é dessa forma que se devem discutir os assuntos sérios", prosseguiu, antes de acrescentar que João Galamba "não deseja mais nem melhor a Portugal" do que o PSD.

O líder parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares, subscreveu a ideia de que "há uma claque na direita em Portugal que bate palmas" à Comissão Europeia e à sua "agenda política de choque e pavor".

Também o líder parlamentar do PCP, João Oliveira, concordou que há um "alinhamento do PSD e do CDS com a Comissão Europeia" contra o interesse nacional, dos trabalhadores e pensionistas. "A verdadeira preocupação do PSD e do CDS-PP é com a perspetiva de devolver aos portugueses aquilo que os senhores roubaram", sustentou.

Campos Ferreira desafiou PCP e BE a assumirem que são "contra a Europa, contra o euro", defendendo que "essa é que é a questão de fundo" e que o PS foi arrastado pelas posições desses partidos.

"O PS quer fazer a vontade a tudo e a todos. Lá saberá no sarilho e na alhada em que nos quer meter", declarou.