Nem que Cristo descesse à terra, seria de esperar que Judas, Joaquim de seu nome próprio, médico de profissão, perdesse a câmara de Almada nas autárquicas de domingo. Era o último de uma continuidade de autarcas que durante 41 anos mantiveram a autarquia sob o controlo das coligações eleitorais criadas em torno do PCP: FEPU, APU e agora, CDU.

Mas aconteceu, na que será a mais pesada derrrota dos comunistas portugueses, entre os dez municípios que perderam, passando de 34 para 24. Resultados finais no concelho de Almada: o PS conquistou a câmara com mais 313 votos. Teve a confiança de 20.810 eleitores contra 20.497 da CDU.

Há sempre uma inércia que se instala quando se está há muito tempo no poder. Faz falta inovação, dinâmica, mas não faço processos de intenção", reflete a futura presidente da Almada, Inês de Medeiros, de 49 anos, nascida em Viena de Áustria, num dos períodos em que a mãe, a jornalista Maria Armanda de Saint-Maurice, e o pai, o maestro António Victorino de Almeida, ali viveram.

A vitória socialista no mais populoso concelho a sul do Tejo, um dos dez com mais habitantes no país, foi uma das três conquistas que garantiram ao PS tornar-se maioritário na Junta Metropolitana de Lisboa. Com a conquista de Almada, Alcochete e Barreiro, os socialistas passaram a dominar nove dos 18 municípios da Área Metropolitana, precisamente o número que a CDU detinha.

"Um passe intermodal"

A futura presidente firma-se no programa pelo qual se bateu e assume, em conversa com a TVI24, na ressaca cansativa de uma longa noite eleitoral que "o conhecimento de Almada só nasceu em 2015 quando fui deputada pelo distrito de Setúbal. Acabei por sair da Assembleia da República para entrar no Inatel mas mantive contato com PS local". Assim surgiu a oportunidade da candidatura, que acabou vitoriosa. Surgem agora as responsabilidades de responder perante os mais de 170 mil habitantes da cidade.

Há um compromisso de todos os candidatos do PS para a mobilidade que passa por um passe intermodal para área metropolitana", lembra Inês de Medeiros, que destaca a questão dos transportes como das mais importantes para o concelho. Por isso, quer conduzir os destinos da Almada na "renegociação de dois contratos que vão ter de ser revistos com os TST e Fertagus".

Como qualquer autarca, Inês de Medeiros fala à TVI24 da necessidade de "dinamizar o turismo" -  "Almada tem 20 quilómetros de costa completamente ao abandono e uma frente ribeirinha muito importante" - criar mais emprego numa cidade que considera "muito mais do que um subúrbio, porque tem uma identidade própria".

A situação social é também das mais importantes. Há em Almada, casos de pobreza extrema com bairros de lata, bairros sociais, situações incompreensíveis numa zona metropolitana", acrescenta Inês de Medeiros, que se propõe "falar em colaboração com as outras forças políticas" que têm representação entre os onze vereadores eleitos: quatro da CDU, dois do PSD e um do Bloco de Esquerda. "Mas ainda temos tempo para isso", diz a futura autarca.

Maestro "já se habituou às nossas surpresas"

Residente em Lisboa, Inês de Medeiros admite ter de arranjar "um sítio para ficar em Almada". Caso contrário e no princípio do mandato, terá de sentir na pele os problemas da tal mobilidade urbana. "Farei como 80% das pessoas de Almada, só que em sentido contrário. Até estou em vantagem", assume de forma bem disposta.

À TVI24, revela ainda ter falado com o pai, o maestro Victorino de Almeida, logo na noite eleitoral.

Acho que está contente. Já se habituou às nossas surpresas", diz Inês de Medeiros, irmã da também atriz Maria de Medeiros, que não consegue de memória lembrar-se de um filme com um enredo capaz de contar como foi a sua vitória eleitoral em Almada.

Todas as campanhas têm um bocadinho de neo-realistas. E eu como sou fã do neo-realismo italiano, gosto sempre de campanhas", revela a futura presidente que considera ter contribuído para o sucesso eleitoral, "uma campanha muito no tereno, muito discreta, aberta, a combater a abstenção".

Em 2013, quando a CDU renovou a sua maioria absoluta em Almada, com seis vereadoes nos onze do executivo, 40,53% dos eleitores não foram às urnas. Domingo, a abstenção baixou para 55,73%.

Nunca quis sondagens, porque com 60% de abstenção seria pouco significativo. Nos últimos dias de campanha, senti que íamos ter um bom resultado. Mas prever ganhar, seria uma grande ousadia da minha parte", assume a próxima presidente da câmara de Almada.