VIRAGEM À ESQUERDA - O secretário-geral do PS, António Costa, pediu este domingo uma maioria absoluta nas eleições legislativas do próximo ano e elogiou o partido Livre, sem nunca falar em coligações ou acordos de incidência parlamentar num futuro Governo socialista. «Não posso deixar de valorizar o Livre, que procura romper o bloqueio da incomunicabilidade à Esquerda», disse na sessão de encerramento do XX congresso, que contou entre os convidados com Rui Tavares, o rosto desta nova formação política.  

«O país tanto precisa de uma maioria quanto precisa de acordo de governação e de compromissos sólidos e duradouros, por isso, a maioria que nós queremos é plural», sublinhou o secretário-geral socialista, sem contudo concretizar qual o formato político desse entendimento à Esquerda que deseja. Claro ficou que António Costa não está interessado em partilhar o poder com uma eventual coligação ou acordo à Direita

«O pior que pode acontecer a uma democracia é quando se gera um enorme empastelamento, quando existe um pântano no qual ninguém se diferencia» e «tudo é farinha do mesmo saco». O que distingue o PS dos partidos do Governo «não é só uma questão de estratégia económica». Para Costa, é mais que isso: «Há cada vez maior fosso ideológico, cultural e, diria até, civilizacional, com algum radicalismo desta Direita».

Dizendo que não queria «deixar qualquer tipo de equívocos» e sublinhando «uma solução estável», declarou: «Não excluiremos os partidos à nossa Esquerda». E exorou-os a «não serem só partidos de protesto, mas a fazerem parte da solução para os problemas nacionais». 

«A vida e a minha própria experiência em Lisboa ensinou-me a não ter ilusões, ensinou-me que é bem mais fácil estar do lado do protesto do que do lado da solução», exemplificou.
 
PRESIDENCIAIS - António Costa não apresentou um nome de um candidato a Belém apoiado pelo PS, mas deixou aberta a possibilidade de não ser um socialista. «Teremos também eleições presidenciais, que não são obviamente eleições partidárias», lembrou. «O PS honra-se muito do contributo que tem dado para a eleição da Presidência da República desde que em 76 apoiou Ramalho Eanes». Ou seja, lembrou o apoio do partido a um independente. Sem nunca citar o nome de António de Sampaio da Nóvoa, que já manifestou disponibilidade para uma candidatura a Belém, António Costa disse também que «as escolhas do PS têm sido sempre escolhas avisadas».

Criticou o sonho de Sá Carneiro de «um presidente, um governo, uma maioria», e explicou que o PS está empenhado «em contribuir para a eleição de um Presidente da República que, saindo da fileira ou da área política do PS», tenha as características da defesa da Constituição, da unidade do país e que represente bem Portugal lá fora. No fundo, «um presidente que renove o orgulho que todos tivemos nas presidências de Jorge Sampaio e Mário Soares».

O CONGRESSO DA UNIÃO - António Costa disse que o PS saiu «mais forte, mais vivo e mais unido» depois deste congresso. «Depois do debate franco, do debate frontal» para se decidir a liderança, o «PS é um partido unido» e focado nos problemas dos portugueses». Não comentou a aparente rutura com Francisco Assis e a ala mais ligada a António José Seguro.
 
A AGENDA DO NOVO PS - O PS «sai deste congresso com uma visão estratégica clara» quanto ao futuro do país. De recordar que a moção de António Costa, «Agenda para a Década», a única em votação, foi aprovada por unanimidade, uma sintonia pouco habitual numa reunião com cerca de 1800 delegados. Esta agenda do PS, segundo enumerou Costa, assenta na importância das qualificações, na modernização do Estado, dignificação das condições de trabalho e em duas áreas-chave, a Cultura e a Ciência, muito aplaudidas pelos presentes.
 
«Saímos também deste congresso, para além de uma agenda para a década, com uma agenda europeia. Uma agenda centrada no que Portugal quer para a Europa». Costa passou a enumerar o ponto fundamental: «Queremos uma moeda que gere prosperidade para todos e não apenas para alguns».

Neste discurso, tal como já tinha sublinhado na sua intervenção de abertura, destacou a importância de um programa de recuperação económica e de emprego para haver um «crescimento sustentável» e sobretudo diminuir o risco sistémico das crises do euro.
 
ELEIÇÕES NA MADEIRA E RECANDIDATURA NOS AÇORES - «Essa mobilização que conseguimos nas primárias temos de conseguir agora com um programa de Governo», lembrou António Costa, anunciando a recandidatura de Vasco Cordeiro na presidência do Governo Regional dos Açores, nas eleições de 2016, e o desafio do líder dos socialistas madeirenses, Vítor Freitas, nas regionais madeirenses, que serão no próximo ano e «um ciclo eleitoral intenso».
 
DAS HISTÓRIAS DE VIDA - Num discurso onde não apresentou medidas para um novo Governo, António Costa abriu o partido à adoção de crianças por casais homossexuais e foi muito aplaudido. Não tem de  «ser o Estado a escolher o tipo de família», sublinhou. «O que está em causa é o apoio às crianças, não a ideia que o Governo tem de família», reforçou.

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E PAPA - Já na reta final do seu discurso, um momento emotivo. António Costa chamou Maria do Céu Guerra para o seu lado e pediu ao congresso para se levantar e prestar homenagem às mulheres vítimas de violência doméstica. A atriz leu «o nome das 34 vítimas de uma chaga social» e no final recebeu um beijo na mão por Mário Soares.
 
«É por isto que a política é necessária, a política são pessoas e a política tem a ver com as pessoas», disse Costa, destacando posteriormente que o Papa Francisco relembrou esta semana que a «dignidade da pessoa humana é o valor principal sobre o qual deve ser a ação política».
 
A RESTAURAÇÃO E O PS RESTAURADO - «Amanhã, dia 1 de dezembro, comemoraremos a Restauração da Independência Nacional», disse António Costa já com o congresso de pé em ovação. Apesar de não ser feriado, «os portugueses celebrarão a data». Pela independência e restauração, duas palavras que colou ao novo PS e  às quais juntou uma outra, «confiança», repetida três vezes no fecho do discurso.
 
 
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AO MINUTO: o filme do congresso