O candidato do PS a primeiro-ministro, António Costa, defendeu a necessidade de um reforço do «diálogo» entre os agentes políticos nacionais e a urgência de o país «retomar a confiança».

No final de uma audiência de mais de uma hora e meia com o Presidente da República, questionado pelos jornalistas sobre a necessidade de convergência entre as forças políticas defendida por Cavaco Silva, António Costa afirmou: «os consensos não são em abstrato. É como eu perguntar: "quer fazer uma viagem comigo ?". A sua resposta normal é: "mas viagem para onde?».

«É importante que os diversos agentes políticos possam falar e que falem, falta muito diálogo em Portugal e o diálogo é um fator importante para dar confiança para reforçar a tranquilidade e a certeza nas expetativas do futuro. É importante que isso aconteça e quero agradecer ao senhor Presidente da República a disponibilidade que teve para esta conversa», afirmou.

Para António Costa, «urgente que o país retome confiança».

«A instabilidade na ação governativa, o não funcionamento de setores fundamentais da normalidade do Estado - como o concurso de professores e a situação da justiça evidenciam - são obviamente fatores de perturbação que em nada contribuem para dar ao país a confiança que tem de ter para enfrentar os desafios do futuro», afirmou.

Questionado sobre a possibilidade de antecipação das eleições legislativas, previstas para outubro de 2015, o candidato socialista a primeiro-ministro começou por salientar que o assunto não foi abordado na audiência com o chefe do Estado, mas voltou a defender as vantagens da revisão dos calendários eleitorais - «Se não for para esta legislatura espero que seja para a próxima», disse.

«Já tenho dito publicamente que Portugal tem de acertar o seu calendário eleitoral normal com os calendários normais de elaboração de orçamentos e com os próprios calendários europeus. Como sabem a Constituição alinhou a existência das eleições com o mês de outubro. O calendário europeu deveria fazer com que saudavelmente o novo governo pudesse entrar em funções em finais de maio ou junho de forma a ter tempo de calma e serenamente preparar um orçamento para ser apresentado a 15 de outubro como é normal», argumentou.

E acrescentou: «Acho que um dia vamos ter de acertar esse calendário. Se puder ser agora excelente, senão que seja acertado para um momento posterior. Não é uma questão política, é uma questão de ajustamento dos calendários (…), é necessário e vantajoso para o país que possamos ter um calendário normal. Eleições em outubro significa que, quando se devia estar a apresentar o orçamento, está-se a começar a formar um governo. Tudo isso introduz demora, quebra de ritmo, adia a tomada de posições e necessariamente não é bom para o país».

António Costa chegou sozinho e alguns minutos antes da hora prevista para a audiência com Cavaco Silva em Belém, descrita na quinta-feira por fonte de Belém como resultando de uma «convergência de vontades» entre as duas partes.

O presidente da Câmara de Lisboa, que há cerca de duas semanas derrotou António José Seguro nas primárias socialistas para a escolha do candidato a primeiro-ministro do partido nas próximas eleições legislativas, falou também na quinta-feira à noite num «encontro de vontades».

«Naturalmente, queria falar com o senhor Presidente da República, que também teve a gentiliza de querer falar comigo», disse, recusando-se depois a adiantar mais pormenores sobre o encontro.

A 28 de setembro, António Costa venceu as primárias no PS, destinadas a escolher o candidato do partido a primeiro-ministro, com cerca de dois terços dos votos de militantes e simpatizantes, derrotando António José Seguro, que, na mesma noite, se demitiu do cargo de secretário-geral.

Seguro renunciou entretanto ao lugar no Conselho de Estado, o órgão de consulta do Presidente da República, e ao seu lugar de deputado na Assembleia da República.

No início da semana, a secretária-geral do PS em exercício, Maria de Belém, anunciou que as eleições diretas para a liderança socialista - que irão escolher o secretário-geral do partido - se realizam no dia 21 de novembro e o congresso nacional uma semana depois, a 29 e 30, no Parque das Nações em Lisboa.