O antigo primeiro-ministro português José Sócrates afastou a possibilidade de ser candidato a Presidente da República, apesar de afirmar «não ter vontade» de se afastar da política, numa entrevista publicada, esta quinta-feira, no jornal moçambicano «O País».

«Não vou candidatar-me», disse o antigo líder socialista, sobre uma eventual corrida a Belém, acrescentando não ter ambição de se candidatar a nenhum cargo nem sentir esse impulso.

«Quando nos candidatamos, não são os outros que nos motivam, temos que ser nós próprios a sentir essa vontade de fazer, de servir o seu país, de dar o seu contributo, mas não sinto essa motivação e não quero regressar à vida política ativa», disse Sócrates.

«Não ponho de lado nada para o futuro, mas nos próximos anos não. Vai passar muito tempo até que eu tenha vontade de voltar à vida política», acrescentou.

«Para já, o que eu desejo é manter-me numa posição de quem participa no debate político, não tenho nenhuma vontade, não sinto nenhum chamamento, nem apelo interno», reforçou Sócrates.

Antes, recordando o seu passado, o antigo primeiro-ministro afirmou-se um «político realizado» e «sem vontade» em se afastar da política. «Agora, quero beneficiar desse novo estar de felicidade de quem se representa a si próprio», acentuou.

Na entrevista, que será também transmitida esta noite no canal televisivo STV, do grupo Soico, que detém O País, o ex-primeiro-ministro acusou a liderança europeia de «conduzir o continente para a desconfiança» entre norte e sul.

«Nunca se verificou algo igual, facto que leva a desconfianças mútuas que põem em causa a confiança que os membros da União Europeia devem ter uns com os outros», disse.

«Grande parte da política europeia produzida nestes dias é uma política que se baseia não na vontade de ir mais além na Europa mas numa ideologia que é de direita», acrescentou Sócrates.

«Alguns europeus pensam que a crise não é deles, estão equivocados. Esta crise é de toda a Europa e aqueles que negam, mais tarde ou mais cedo acabarão por ser vítimas dela, a começar pela Alemanha», reforçou.

O antigo primeiro-ministro é recordado em Moçambique como o político português que, em 2007, fechou o «dossier Cahora Bassa», que se arrastava desde a independência do país, em 1975, e o próprio afirmou não perceber «tanta demora» na entrega do empreendimento a Maputo.

«Não compreendo porque, antes de mim, não se resolveu este problema. Aquilo era uma marca de um colonialismo que não tinha razão de ser, que podíamos já ter resolvido, infelizmente arrastou-se durante muito tempo, talvez por múltiplas culpas, não interessa agora fazer esse juízo», disse José Sócrates.