O Presidente da República disse esta quinta-feira que a candidatura de António Guterres a secretário-geral das Nações Unidas é "congregadora" e "a favor de todos", considerando que se o antigo primeiro-ministro for eleito será "brilhante" no cargo.

"É uma candidatura a favor de todos, congregadora, baseada no extraordinário mérito do candidato e assente na certeza de que, caso seja eleito, António Guterres será um brilhante secretário-geral das Nações Unidos", afirmou o chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, numa intervenção na apresentação de cumprimentos pelo corpo diplomático, que decorreu no Palácio da Ajuda, em Lisboa.

Considerando que António Guterres "valorizará a ONU e fará com a inteligência e capacidade que todos lhe reconhecerem a ponte entre as nações", o novo Presidente da República introduziu mesmo aquilo que chamou de "nota pessoal" admitindo que o ex-primeiro-ministro e antigo Alto-Comissário para os Refugiados "é certamente o vulto mais brilhante" da sua geração. 

Numa longa intervenção, de mais de 30 minutos e em que começou por avisar que iria manter a sua "autenticidade" e quebrar "um bocadinho o protocolo", Marcelo Rebelo de Sousa falou sobre a moldura legal que enquadra as relações internacionais portuguesas, focou-se na geografia e história de Portugal e destacou o papel das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo e das comunidades estrangeiras residentes em Portugal, sublinhando a forma como contribuem para os portugueses se relacionarem com os outros.

"Independentemente do Presidente da República ou do Governo que estiverem em funções, Portugal está comprometido a respeitar os tratados e as convenções internacionais que ratificou", frisou, lembrando que a Constituição orienta os princípios da atuação em matéria de relações internacionais.

Contudo, acrescentou, nem tudo "é uma inevitabilidade" neste domínio e há um terceiro elemento que condiciona a política externa, que resulta do programa do Governo aprovado do parlamento.

Falando perante mais de uma centena de representantes do corpo diplomático, o Presidente da República manifestou ainda o seu orgulho pelas comunidades portuguesas no estrangeiro, sublinhando que em quase todas as famílias portuguesas existem parentes que emigram, como é o caso da sua família.

"O meu país deve muito às suas comunidades e Portugal não seria o mesmo sem o seu contributo", frisou.

Mas, acrescentou, as comunidades estrangeiras que se instalaram em Portugal são igualmente motivo de orgulho e são hoje tão portugueses como todos os que nasceram no país.

"Considero que valorizar e promover as comunidades estrangeiras que se integram em Portugal é valorizar e promover Portugal no seu todo", declarou, apontando três "excelentes exemplos" de quatro portugueses que tendo nascido no estrangeiro ou sendo filhos de cidadãos de outros países têm dado "um contributo inestimável para levantar bem alto a bandeira de Portugal pelo mundo fora": a fadista Mariza e os atletas Francis Obikwelu, Naide Gomes e Nelson Évora.

Mariza, Francis Obikwelu e Naide Gomes foram, aliás, um dos motivos da quebra de protocolo, ao assistirem como convidados e sentados em lugar de destaque à cerimónia normalmente reservada aos diplomatas.

Marcelo quer ir mais longe na ação externa 

Na mesma intervenção, o Presidente da República disse que tentará aprofundar a "relação de colaboração frutuosa" com Governo e Parlamento para ir "mais longe" na ação externa, lembrando a tradição de "política de consenso e de continuidade" nessa área.

"A política externa portuguesa tem sido sempre uma política de consenso e de continuidade e na qual há uma tradição e harmonia e colaboração frutuosa entre Presidente da República, Assembleia da República e Governo (…), sempre estivemos juntos", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, numa intervenção na apresentação de cumprimentos pelo corpo diplomático, no Palácio da Ajuda, em Lisboa.

Falando perante mais de uma centena de representantes do corpo diplomático, o novo Presidente da República prometeu que, "mais do que manter", tentará aprofundar "a relação de colaboração frutuosa" com o Executivo e o Parlamento para ir mais longe "nos objetivos que são de todos" na ação externa.

"Estarei sempre interessado, disponível e empenhado para, em conjunto, irmos mais longe na afirmação de Portugal na cena internacional", assegurou, advertindo, contudo, que exercerá o seu cargo no que às relações internacionais diz respeito no "estrito cumprimento" da Constituição e dos compromissos internacionais assumidos.

Já no final da sua intervenção, o Presidente da República dirigiu-se aos chefes de missão acreditados em Portugal, garantindo que a relação de amizade que com muitos mantinha antes de ser eleito irá manter-se, podendo mesmo o contacto ser reforçado, com uma relação ainda mais regular e intensa.

A este propósito, Marcelo Rebelo de Sousa anunciou que irá promover, conjuntamente com o ministro dos Negócios Estrangeiros e com a sua assessoria diplomática, encontros com os chefes de missão nos respetivos grupos regionais com que se organizam em Lisboa, para ouvir as suas opiniões e otimizar o seu papel como elo de ligação de Portugal com outros países.

Na intervenção, o novo chefe de Estado aproveitou ainda para falar sobre outra das suas intenções, que é prolongar as comemorações do 10 de Junho para além do "território físico" de Portugal.

Assim, disse, em consonância com o Governo, a Presidência da República pretende assinalar o Dia de Portugal "mantendo a celebração do 10 de Junho em Portugal território físico, mas prolongando-a em Portugal território humano, junto das comunidades que vivem num dos muitos países" por onde os portugueses se espalharam.

No seu discurso, Marcelo Rebelo de Sousa deu ainda nota da intenção de participar na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, já este ano, dando um sinal de continuidade na aposta do multilateralismo, bem como de marcar presença nas reuniões informais de chefes de Estado sem funções executivas do "Grupo de Arraiolos", nos encontros da COTEC Europa e nas cimeiras Ibero-Americanas.

Antes do discurso do Presidente da República, o Núncio Apostólico, Rino Passigato, fez também uma breve intervenção onde saudou o novo chefe de Estado e fez elogios à "vocação universalista" de Portugal, sublinhando que o país mantém laços firmes de cooperação cultural, económica e estratégica com a maioria dos povos de todos os continentes.